História do Romance

A desilusão romântica de Balzac a Flaubert
Alexandre Bebiano de Almeida (FFLCH / USP)1
Resumo:

A propósito de uma mudança na história do romance, escreveu Albert Thibaudet: “Tudo se passa
como se nesses anos cinqüenta, decisivos para a história do romance, se desenvolvesse de Balzac a
Flaubert uma lógica interior ao romance”.2 Mas o que vem a ser essa lógica interior nos próprios
romances de Balzac a Flaubert? O que vem a ser essa mudança no estatuto do romance? Eis aí a
proposta desta comunicação: examinar essa transformação por meio de um breve comentário dos
romances de Balzac e Flaubert. Para tornar mais clara a exposição, vamos nos centrar no estudo
de uma personagem importante aos dois romancistas: a do estudante romântico, disposto a conquistar
a sociedade, seja por seu mérito, seja por suas ambições: Eugène de Rastignac e Frédéric
Moreau.
Palavras-chave: história do romance; desilusão romântica; Balzac; Flaubert.
Introdução
É comum ressaltar na história do romance francês sua passagem de gênero popular a artístico.
Não foi sem alterações radicais em sua forma que o romance atravessou a história do Iluminismo ao
Novo Romance. No limite, até a metade do século XIX, o romance era visto com certa desconfiança
junto aos homens de letras. Como não lhe cabia um lugar na teoria clássica dos gêneros, o romance
era considerado uma criação menor, em comparação com as artes plásticas, o teatro ou a poesia.
3 Enfim, arte menor, mas de grande apelo popular, era assim que os literatos o consideravam
ao menos até a metade do século.4 E lembremos que mesmo Balzac hesitava chamar a si próprio de
romancista, preferindo o título de historiador da França.
A propósito de uma mudança, escreveu Albert Thibaudet: “Tudo se passa como se nesses anos
cinqüenta, decisivos para a história do romance, se desenvolvesse de Balzac a Flaubert uma lógica
interior ao romance”.5 Pode-se dizer grosso modo que o romance de Balzac se apóia numa espécie
de espontaneidade da criação e que, a partir da segunda metade do século, especialmente com
a geração de Flaubert, surge entre o escritor e a realidade o mediar complicado da forma romanesca.
O romance parece obter estatuto literário às custas de certo caráter ingênuo da criação: quando ele
abandona, especialmente com os romances de Flaubert, seu cunho popular e espontâneo, ele adquire
a condição de obra de arte moderna e inaugura os novos tempos da história literária. Noutras palavras,
quando passa a considerar a representação da realidade como uma dificuldade estética, quando
toma sua faculdade natural de representar como elemento da composição, o romance adquire cidadania
na história moderna da literatura e da arte. Mas o que vem a ser essa lógica interior nos próprios
romances de Balzac a Flaubert? O que vem a ser essa mudança no estatuto do romance? Eis
1 Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
(FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP).
2 Citado por RAIMOND, Le roman depuis la Révolution, 9ª ed., Paris, Armand Colin, 1988, p. 93.
3 Para um análise do romance antes do século XIX, cf. CANDIDO, “A timidez do romance”, em A educação pela noite
e outros estudos, 3ª. ed., São Paulo, Ática, 2003, p. 82-99.
4 “O maior fenômeno da história literária na metade do século é a conquista pelo romance de seu reconhecimento como
gênero literário.” (MILNER & PICHOIS, De Chateaubriand à Baudelaire (1820-1869), Paris, Arthaud, 1990, p.
39)
5 Citado por RAIMOND, Le roman depuis la Révolution, 9ª ed., Paris, Armand Colin, 1988, p. 93.
XI Congresso Internacional da ABRALIC
Tessituras, Interações, Convergências
13 a 17 de julho de 2008
USP – São Paulo, Brasil
aí a proposta desta comunicação: passar a limpo essa transformação por meio de um breve comentário
dos romances de Balzac e Flaubert. Para tornar mais clara a exposição, vamos nos centrar no
estudo de uma personagem importante aos dois romancistas: a do estudante romântico, disposto a
conquistar a sociedade, seja por seu mérito, seja por suas ambições.
1 A experiência da desilusão
Comecemos com o romance de aprendizagem de Eugène Rastignac: O pai Goriot, concluído
por Balzac no ano de 1834. Neste romance, a morte do personagem-título contrasta com o ingresso
do jovem ao mundo parisiense. Em princípio, este jovem é um exemplo do romântico. Trata-se de
um belo estudante de origem provinciana, cuja paixão é a vida literária e pública, as experiências
amorosas, o sucesso na sociedade. Os seus anseios vão se opor, contudo, aos escrúpulos da educação,
o que provoca um drama de consciência. A certa altura, Rastignac vai perguntar a seu amigo
Bianchon: “o que faria se pudesse enriquecer matando, apenas pela vontade, um velho mandarim
da China?”6
A bem dizer, o romance conta de que maneira as experiências deste estudante em Paris vão
conduzi-lo a se tornar um arrivista. Para esta mudança não é de pouca importância os destinos de
Vautrin, da Sra. de Beauséant e do pai Goriot. Pensando neles quase ao final de sua aprendizagem
(todos os eventos do enredo se concentram no mês de novembro de 1819), Rastignac indaga-se:
“As belas almas não podem permanecer muito nesse mundo. Como os grandes sentimentos se aliariam,
com efeito, a uma sociedade mesquinha, pequena, superficial?” (p. 270; trad, p. 213)
Os exemplos do jovem participam da sociedade parisiense; a julgar pelo próprio narrador
balzaquiano, eles participam da vaidade, da mesquinharia e da violência desta sociedade, mas conservam,
ainda assim, a nobreza da alma, uma vez que seguem fiéis a suas paixões: a Sra. de Beauséant,
contando com costumes herdados do Antigo Regime, entrega-se apaixonadamente a um nobre
português; Vautrin, discípulo do autor d’O contrato social, segue na criminalidade e no terrorismo;
o pai Goriot, mesmo sendo um frio negociante, oferece todo seu dinheiro às filhas. O desenlace
do romance expõe: a prisão de Vautrin, a frustração do amor da viscondessa, a morte nauseabunda
do velho. Num quarto miserável da pensão Vauquer, ele agoniza sem o consolo das filhas.
Estes três personagens não ocultam a Rastignac a natureza da sociedade parisiense; eles se
dispõem mesmo a apresentá-lo a esta sociedade. Eis um dos conselhos da viscondessa a seu jovem
primo:
Quanto mais friamente você calcular, mais longe irá. Fira e será temido. Considere
os homens e as mulheres apenas como cavalos de posta que você abandonará estafados
em cada estação de muda e assim atingirá o auge de suas ambições” (p.
116; trad, p. 73) Deslauriers est républicain, admire Robespierre et Arm. Carrel —
ambitieux — exemple de M. Thiers et de Mirabeau — beaucoup d’aplomb, ironie
sèche, préoccupé de métaphysique, Leroux, Cousin, etc. — Frédéric l’est de
poésie, ou plutôt de passions poétiques, influence de Byron. L’un est le dernir des
penseurs l’autre le dernier des romantiques.7
Enfim, estes personagens demonstram mediante suas próprias trajetórias a verdade da sociedade.
O pai Goriot, à hora da morte, lhe oferece a última lição: “O dinheiro dá tudo, até filhas.” (p.
273; trad, p. 215) Após enterrar o pai Goriot, ao fim do romance, Rastignac vê toda a cidade do
alto do cemitério Pére-Lachaise e lança um desafio: “E agora, nós dois!” (trad, p. 230). Ele acha-se
6 BALZAC, Le pére Goriot, Scènes de la vie privée, Études de moeurs, La Comédie humaine, France, Gallimard,
1976, v. III, p. 164; O pai Goriot, Cenas da vida privada, Estudos de costumes, A comédia humana, tradução de
Gomes da Silveira, 2ª ed., Rio de Janeiro, Globo, 1954, v. 4, p. 116. Citado desde agora citado entre parêntesis no
próprio texto.
7 FLAUBERT. L’Éducation sentimentale: les scénarios. Edition preparée par Tony Williams. France: Jose Corti,
1992, p. 36 (grifos nossos).
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pronto para desafiar este mundo; ele não possuía mais ilusões sobre o que aí lhe esperava; tinha
sido concluída a educação do arrivista.
Tudo somado, pode-se dizer que o romance revisa os ideais heróicos do romantismo. A falência
desses ideais é exposto mediante o destino de Rastignac, cuja vontade em princípio era:
“como acontece às almas grandes, dever tudo a seu próprio mérito” (p. 75; trad, p. 36).

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