O INTERTEXTO NA CONSTRUÇÃO DA LEITURA CRÍTICA

O INTERTEXTO
NA CONSTRUÇÃO DA LEITURA CRÍTICA
Carmen Elena das Chagas (UFF)
carmenelena@bol.com.br
RESUMO
Pela prática de textos que se instaurou ao longo dos anos, a escola forneceu
uma imagem, particularmente, deturpada da leitura, pois trabalhava de maneira
quase exclusiva com trechos escolhidos. Assim, a escola foi desenvolvendo uma
prática de leitura junto a leitores que se viram obrigados, para cada interpretação,
a penetrar num texto desconhecido. Sob a ótica da linguística textual e do
ensino de língua materna, este trabalho objetiva despertar certo número de categorias
interpretativas e intertextuais que não derivam forçosamente do domínio
verbal, mas que são suscetíveis de se aplicar a ele, caso o professor queira explorar
mais intensamente essas categorias. Aprender a ler consistirá, então, em saber
estruturar, por meio da intertextualidade, essas categorias interpretativas e
melhorar, refinar, até mesmo modificá-las, quando isso se fizer necessário, explorando
os dispositivos de decodificação já presentes no espírito do leitor, tornando-
o mais crítico. Dessa forma, ler não será mais uma entrada em espaços desconhecidos
e sim um passeio entre os textos de variados gêneros. Um texto será, então,
legível por um lado, porque funciona segundo leis e esquemas de que já dispõe
o leitor e porque se dá como reescritura de outros textos, levando assim em
conta a experiência anterior do leitor. O texto, enfim, será legível em relação a
uma norma ou a certa concepção do verossímil.
Palavras-chave: Leitura. Intertextualidade. Gênero textual
1. Considerações iniciais
O ensino da leitura, nas aulas de língua portuguesa, assume
uma particular relevância, porque o aluno precisa ser preparado para
se tornar o sujeito do ato de ler, ou seja, um leitor crítico. Para tanto,
é necessário que ler se torne a capacidade de apreender a significação
profunda dos textos com que o leitor se depara, preparando para
reconstruir e para reinventar os textos.
Partindo dessa realidade, cabe ao professor a tarefa de despertar
no aluno/leitor uma atitude crítica diante da realidade em que se
princípio o seu mundo, mais depois, gradativamente, todos os mundos
possíveis. Assim, nas aulas de leitura, é importante conscientizar
Revista Philologus, Ano 17, N° 49. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr. 2011
o aluno da existência, em cada texto, de diversos níveis de significação.
Isto é, cabe mostrar-lhe que além da significação explícita, há
toda uma gama de significações implícitas, muito mais sutis, diretamente
ligadas à intencionalidade do produtor.
Cada texto abre a perspectiva de uma multiplicidade de interpretações
ou leituras, pois se as intenções do produtor podem ser as
mais variadas não teria sentido a pretensão de atribuir ao texto apenas
uma interpretação única e verdadeira. A interpretação de um texto
consiste na apreensão de suas significações possíveis, as quais se
representam nele por meio de marcas linguísticas. Essas marcas funcionam
como pistas dadas ao leitor para permitir-lhe uma compreensão
adequada. É preciso mostrar ao aluno/leitor que as pistas que lhe
são apresentadas no texto tornam possíveis recriá-lo a partir de sua
vivência, de seu conhecimento e de sua visão de mundo. Necessário
é o aluno observar que cada nova leitura de um texto lhe permitirá
desvendar novas significações, não percebidas nas leituras anteriores.
Esse fato poderá, inclusive, servir-lhe de motivação, despertando
maior prazer pela leitura ao perceber que, pela reconstrução que ele
mesmo faz do texto, acaba por recriá-lo, tornando-se o seu coautor.
Cabe notar que a leitura que não surge de uma necessidade
para chegar a um objetivo não é propriamente leitura. Quando se lê
porque outra pessoa manda ler, como acontece normalmente na escola,
está-se apenas exercendo atividades mecânicas que pouco têm a
ver com significado e sentido. Essa leitura, de certa forma, desmotivada
não conduz à aprendizagem.
Assim, desenvolvendo a sua competência de leitura, o aluno /
leitor deixará de ser um elemento passivo e passará a participar como
sujeito ativo do ato de ler não só nas aulas de leitura como também
fora delas.
2. A função da intertextualidade
Todo olhar sobre um texto é um olhar estruturado, informado,
sem o qual a obra seria imperceptível, não receptível. Não existem
textos puros. Eles só existem em relação a outros textos anteriormente
produzidos, seja em conformidade ou em oposição a um esquema
textual preexistente, mas sempre em relação a eles. Só é legível o
Revista Philologus, Ano 17, N° 49. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 132 jan./abr. 2011
que já foi lido, aquilo que pode inscrever-se numa estrutura de entendimento,
elaborada a partir de uma prática e de um reconhecimento
de funcionamentos textuais adquiridos pelo contato com longas
séries de textos.
Todo texto revela uma relação radical de seu interior. Dele
fazem parte outros textos que lhe dão origem, que o predeterminam,
com as quais dialoga, que ele retoma ou aos quais se opõe. De acordo
com Bakhtin:
O texto só ganha vida em contato com outro texto (com contexto).
Somente neste ponto de contato entre textos é que uma luz brilha, iluminando
tanto o posterior como a anterior, juntando dado texto a um diálogo.
Enfatizamos que esse contato é um contato dialógico entre textos…
por trás desse contato está um contato de personalidades e não de coisas.
(BAKHTIN, 1979, p. 191)
Um texto será legível por um lado, porque funciona segundo
leis, esquemas, que já dispõe o leitor, porque o leitor lê desde sempre.
Cada signo desencadeia uma lembrança e entra no quadro de
uma grande experiência e por outro lado, porque se dá como reescritura
de outros textos, levando em conta a experiência anterior do leitor.
Aprender a ler consistirá em saber estabilizar e estruturar as categorias
interpretativas. É claro que quanto mais o leitor ler mais
elementos de referência terá a sua disposição e maior ficará sua experiência
intertextual, pois existem esquemas textuais suscetíveis de
serem transferidos para outros domínios de leitura. Os novos textos
sendo sistematicamente ligados a textos anteriormente lidos ou em
sistemas semióticos não verbais dão ao leitor a experiência da leitura
de textos.
O texto redistribui a língua. Uma das vias desta construção é permutar
textos, farrapos de textos que existiram ou existem em volta do texto
considerado e finalmente dentro dele, todo o texto é um intertexto; outros
textos estão presentes nele, em diversos níveis, sob formas mais ou menos
reconhecíveis (BARTHES, 1974).
Afirma-se aqui a importância do fenômeno da intertextualidade
como fator essencial da legibilidade de todos os outros textos,
pois o texto não é mais considerado só nas suas relações com um referente
extratextual, mas primeiro na relação estabelecida com outros
textos.
A ativação do conhecimento prévio é essencial à compreenRevista
Philologus, Ano 17, N° 49. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr. 2011
são, pois é o conhecimento que o leitor tem sobre o assunto que lhe
permite fazer inferências necessárias para relacionar diferentes partes
discretas do texto num todo coerente. Existem evidências experimentais
que mostram com clareza que o que se lembra mais tarde, após
leitura, são as inferências que são feitas durante a mesma.
Bakhtin diz que há relações entre textos e dentro dos textos.
Isso significa que se deve diferençar a intertextualidade da intratextualidade.
Assim quando duas vozes são mostradas no interior do
texto não se deve falar em intertextualidade.
Os textos podem ser classificados, também, levando-se em
consideração o caráter da interação entre autor e leitor, pois o autor
se propõe a fazer algo e quando essa intenção está materialmente
presente no texto, através das marcas formais, o leitor se dispõe a
executar, momentaneamente, a ideia do autor para depois aceitar,
julgar ou rejeitar.
Assim, a intertextualidade deveria ser a denominação de um
tipo composicional de dialogismo aquele em que há no interior do
texto o encontro de duas materialidades linguísticas de dois textos.
Para que isso ocorra é necessário que um texto seja independente de
outro que com ele sempre dialoga.
3. A importância dos gêneros textuais
Os gêneros são tipos de enunciados relativamente estáveis caracterizados
por um conteúdo temático, uma construção composicional
e um estilo. Falamos sempre por meio de gêneros no interior de
uma dada esfera de atividade.
A riqueza e a seriedade dos gêneros do discurso são infinitas, pois a
variedade virtual da atividade humana é inesgotável e cada esfera dessa
atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que vai diferenciando-
se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve
e fica mais complexa. (BAKHTIN, 1979, p. 279).
Os gêneros estão sempre vinculados a um domínio da atividade
humana, refletindo suas condições específicas e suas finalidades.
Conteúdo temático, estilo e organização composicional constroem
o todo que constitui o enunciado que é marcado pela especificidade
de uma esfera de ação.
Revista Philologus, Ano 17, N° 49. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 134 jan./abr. 2011
Os gêneros são meios de apreender a realidade. Novos modos
de ver e de conceituar a realidade implicam o aparecimento de novos
gêneros e a alteração dos já existentes. Simultaneamente, novos gêneros
ocasionam novas maneiras de ver a realidade. Mesmo que alguém
domine bem uma língua, sentirá dificuldade de participar de
determinada esfera de comunicação se não tiver conhecimento do
gênero que ela requer. A falta de domínio do gênero, leva a falta de
vivência de determinadas atividades contextuais.
Bakhtin (ibid.) divide os gêneros em primários e secundários;
a- Os primários são os gêneros da vida cotidiana, são predominantemente,
mas não exclusivamente, orais. Pertencem
à comunicação verbal espontânea e têm relação direta
com o contexto mais imediato.
b- Os secundários pertencem à esfera da comunicação cultural
mais elaborada, a jornalística, a jurídica, a religiosa, a
política, a artística, etc. São preponderantemente, mas
não unicamente, escritos.
Um texto pode passar de um gênero para outro quando for colocado
em outro contexto, isto é, em outra esfera de atividade. Assim,
existem gêneros mais flexíveis e outros mais estereotipados. Entre
os mais criativos estão os da intimidade familiar ou da amizade e
os da literatura. Entre os mais estereotipados estão alguns textos da
vida cotidiana e da vida prática.
4. A leitura e as práticas intertextuais.
O desenvolvimento de práticas intertextuais através de leitura
parte de uma concepção da escrita que difere bastante das concepções
de várias décadas atrás, devido à demanda cada vez maior e
mais diversificada no uso da leitura e da escrita na vida social atualmente.
A sociedade, hoje, necessita de pessoas que possam continuar
o processo de aprendizagem independentemente e, para que isso
aconteça, o cidadão precisa saber ler com criticidade. Escrever e ler
bilhetes e cartas, compreender uma notícia no jornal, entender uma
explicação médica, preencher formulários, defender seus direitos de
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consumidor, desfrutar de um romance é saber reconhecer os objetivos
que a sociedade impõe e requer. Assim, a função da escola é
formar pessoas capazes de ler e interpretar variados textos.
A leitura é uma das maneiras que a escola tem de contribuir
para a diminuição da injustiça social desde que se forneçam a todos
as oportunidades para o acesso ao saber pertencente à sociedade. A
principal tarefa da escola é ajudar o aluno a desenvolver a capacidade
de construir relações e conexões entre os vários nós da imensa rede
de conhecimento. O elo para essas relações é o fio intertextual entre
os fatos e conceitos que elaboramos e apreendemos, porque as relações
entretecem-se, articulam-se em redes constituídas individual e
socialmente e em permanente estado de atualização entre os gêneros
textuais. As atividades intertextuais ajudam a desenvolver uma leitura
mais profunda, pois expõem o aluno / leitor a vários tipos de eventos
ou a diversas formas de ler textos afins, proporcionando uma gama
maior de informações que se transformam em conhecimento
construído socialmente.
5. Considerações finais
Pelo que foi apresentado neste trabalho, conclui-se que há a
necessidade de se criar condições para que os leitores se encontrem
numa relação de igualdade na qual suas pretensões a interpretações
de textos possam ser confrontadas, justificadas e pertinentes às situações
apresentadas. Isso implica criar condições para que todas as
pessoas envolvidas numa situação de leitura exponham, confrontem
e justifiquem suas diferentes interpretações, suas diferentes práticas e
processos de leitura. Considerando que a ação comunicativa está indissociavelmente
ligada à ação verbal e que toda ação se constrói
apoiada sobre um determinado gênero de texto, pensar na constituição
de um contexto para essa forma de agir, implica necessariamente
em pensar de maneira intertextual, pois sempre que se fala ou se escreve,
utilizam-se os gêneros textuais de acordo com a intenção comunicativa.
Dessa forma, os gêneros não só determinam as práticas comunicativas
possíveis, mas são também o produto dessa prática. Na
atividade intertextual, efetivamente realizada, pode ocorrer sempre
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ou um gênero determinado ou uma transformação. Essa transformação
pode ocorrer através da combinação de vários tipos de gêneros,
pela introdução do estilo de um gênero em outro ou pelo empréstimo
de um gênero próprio de uma determinada situação. Essa atividade
proporciona uma variedade de informação e de possibilidades de leitura
de forma a criar um leitor mais participativo e crítico, capaz de
se integrar no ambiente dinâmico e eficaz que a sociedade requer.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN, M. M. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas
fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São
Paulo: Hucitec, 1979.
BARTHES, R. Le linguistique discours. Texte, Enyclopaedia Universalis.
La Haye: Mouton, 1974.
KLEIMAN, A. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. 11. ed.
Campinas: Pontes, 2008.
KOCH, I. Intertextualidade: diálogos possíveis. São Paulo: Cortez,
2007.
______. Argumentação e linguagem. São Paulo: Cortez, 2006.
MACHADO, A. R. O diário de leituras: a introdução de um novo
instrumento na escola. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

4 comentários em “O INTERTEXTO NA CONSTRUÇÃO DA LEITURA CRÍTICA

  1. Mais uma indicação de artigo escrito por mim na internet.

    • Carmen Elena Chagas, bom dia.

      Este blog foi criado apenas para auxiliar meus alunos em pesquisa, para isso colo textos relevantes para a formação deles e contribuir para uma aula de pesquisa. Lembrando que em todos os textos publicados neste blog são indicados aoa alunos a fonte e os autores. Quero lembrar ainda, a repeito a credibilidade das fontes, por isso seleciono aquilo que publico; e, sem dúvida, teremos a honra de tê-la sempre na nossa lista de pesquisa.

      Um abraço e indique textos para nós.

      • Muito obrigada pela oportunidade! Não tenho muita oportunidade de divulgar os meus artigos. Fico muito feliz quando isso acontece e assim posso contribuir um pouco para a Língua Portuguesa. Carmen Elena das Chagas

      • Carmen Helena Chagas, boa tarde.
        É um prazer sua visita em nossas páginas. Tenho certeza que grandes contribuições virão através de seus textos. Caso queira cooperar com nosso blog estamos de portas abertas; e, aproveitando o ensejo, queria convidá-la a nos indicar outras obras relevantes à formação de nossos alunos.
        Um grande abraço.

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