O secreto segredo do imperador

O secreto segredo do imperador

Carta sobre filha fora do casamento mostra detalhes da vida íntima, da escrita e dos erros de português de D. Pedro I

Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida

D. Pedro I:”erros” de português como objeto de reflexão para linguistas e filólogos
Maria Izabel não teve a mesma sorte que Izabel Maria. A primeira morreu de meningite, aqui no Brasil, pouco depois de completar 1 ano de vida. A segunda viveu 74 anos, nasceu no Brasil, estudou no Colégio Sacré Coeur de Paris, e casou-se com um barão e conde alemão. O que elas têm em comum, além de serem brasileiras até no nome?

Neste “secreto” documento manuscrito, do acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, encontra-se a resposta dessa pergunta. Há nele, porém, mais “segredo” involuntário. E há mais perguntas a serem feitas do que respostas a serem dadas.

O manuscrito nos permite fazer uma visita ao passado, à história social e cultural do Brasil, além de também nos oferecer um mínimo recorte da língua portuguesa escrita, e culta, do século 19. Mais especificamente, de 13 de agosto de 1827.

Notório
Dom Pedro I, como toda pessoa poderosa e de renome, tinha consciência de que (quase) tudo que lhe dizia respeito era notório. Mas manter o assunto sob sigilo, embora já viúvo de Dona Leopoldina, parecia-lhe necessário naquele momento. É que reconhecer filhos fora do casamento oficial parece sempre ter sido um evento revolvedor de emoções únicas que, no fundo do fundo, são, como vemos, plurais.

Nesse caso, entende-se o duplo cuidado do Rei por ser ele quem era. Ao mesmo tempo que desejava garantir o futuro de Maria Izabel, como já o fizera com o da irmã, “Izabel Maria de Alcantara Brazileira – a Duqueza de Goiàz”, também queria que, até o tempo certo de se fazer público o reconhecimento de paternidade, o documento continuasse “secreto”, em segredo.

Aqui já cabe um retorno ortográfico, e também etimológico. Num passado mais distante, por volta do século 14, não havia “segredo”, com os sonoros g (pronunciado “guê”) e d. O que se tinha era secreto, com os surdos c (pronunciado “quê”) e t, ao lado de outras variantes concorrentes, como “sacreto”, e “sagrego”. Isso tudo, claro, segundo os dicionários que registram a datação das lexias. Como vale o que está escrito, por ora, confiemos neles até que se prove o contrário.

Publicar o documento do nosso imperador com o título “secreto segredo”, então, é o mesmo que dizer duas vezes o que ele determinara, textualmente, que permanecesse como tema de alcova, ou assunto restrito ao seu diário particular.

Para a curiosidade, porém, não há tempo que se conte, ou lugar que se esconda, nem vontade real que se obedeça. Principalmente, depois de passados mais de 180 anos. Porque a distância e o tempo evidenciam o que todos sempre souberam: o que parecia grande torna-se pequeno, o diferente é igual, o outro agora sou eu, o novo já é velho e vice-versa. Não tem idade! O melhor é ficarmos no inverso de qualquer anverso ou verso ou obverso, ou vice-versa.

O imperador brasileiro D. Pedro I tinha fama de conquistador: cuidado redobrado para manter em sigilo uma filha fora do casamento
Motes
Nos aspectos sócio-históricos, o documento pede interrogação para alguns motes. O que aconteceu com o diário do imperador? Quem são José (o que deu “parte de haver nascido huma menina á” 1 hora e 45 minutos daquele dia 13 de agosto de 1827) e Sarmento (o dono da carruagem)? Ao todo, quantos e quais foram os filhos de Dom Pedro I? Quem são as mães? O que aconteceu com cada um dos seus filhos?

No primeiro parágrafo do texto, a história de duas de suas filhas com a mais famosa de suas amantes, a Marquesa de Santos, já está resumida. Há, porém, muitos enredos latentes nas entrelinhas do manuscrito. Quem tiver a intenção ou “tenção” de narrar e descrever um deles terá de, necessariamente, buscar os ingredientes na vida social pública e privada da realeza brasileira. E daí megulhar no passado, tendo no equipamento a efetiva preocupação com a interdisciplinaridade. O diálogo entre a história, a linguística, a sociologia e a antropologia, por exemplo, é imprescindível para que todo e qualquer estudo do ramo das ciências humanas chegue o mais perto que puder do desejável.

Na modalidade escrita, o manuscrito nos lança à investigação dos seguintes aspectos, dentre outros. Na ortografia: o emprego de z, h, e das letras dobradas em “ella”, “elle” e “sette”. Na acentuação gráfica: o uso do agudo em “á 1 ¾ “, e ausência dele em “as 6 ½”; o emprego do acento grave em “Goiàz”, mas agudo em “Ceará”, e ausente em “Joze”; e, ainda, a ausência da acentuação gráfica nas proparoxítonas “Alcantara”, “Publico” e “titulo”. Na pontuação: o uso da vírgula na datação cronológica “treze de Agosto de mil oito centos, e vinte, e sette”, mas ausência dela na datação tópica “Paço da Boa Vista ø”.

Dentre os muitos aspectos linguísticos, nos mais variados níveis de análise, vale destacar: na semântica, o emprego de “dar parte” com o sentido de “tomar conhecimento”, ao invés de sua acepção mais usual e frequente nos BOs da polícia: “denunciar, acusar, delatar”. Na fonética, o traço de oralidade no registro escrito de “mai”, com “i”, e sem o til. E na morfologia, o uso de “fazo” no lugar de “faço”.

Curiosidade
O emprego de “fazo” por um sujeito escolarizado, com quase 29 anos de idade, deveria, no mínimo, despertar em nós – filólogos, linguistas, alfabetizadores – uma vontade pequena, que seja, de revisitar nossas verdades, já cristalizadas pelo hábito, quando atribuímos esse “erro” ou variante na fala e escrita da criança, durante o processo de aquisição da linguagem, à analogia que ela faz às formas dos verbos regulares quando as dos irregulares são manifestas.

Apenas pela curiosidade que o manuscrito desperta em nós, já valeria o tempo de leitura, reflexão, espanto… Quem sabe! Seja o que for, é um ganho. É desse tipo de material guardado e, às vezes, esquecido em bibliotecas e arquivos, que o dito filólogo ou crítico textual se regala, se alimenta.

Não se trata do alimento com o mesmo valor atribuído pelo “longo verme gordo” do capítulo XVII de Dom Casmurro respondendo a Bentinho a respeito do que havia nos textos dos livros “velhos”, “mortos” e “enterrados” que foram roídos por ele e seus comparsas papirófagos: “Meu senhor, (…) nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.”

Ao contrário de Bentinho – que admite não ter arrancado mais nada do gorducho, nem dos outros vermes que “repetiam a mesma cantilena”, concluindo que “talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído” – podemos, sim, além de roer os textos já roídos e rerroídos, deles arrancar ruídos.

Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida é professor livre-docente do departamento de letras clássicas e vernáculas da USP e pesquisador/CNPq

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