Ambiente Literário: poesia e prosa

ADAPTAÇÕES DE CLÁSSICOS LITERÁRIOS BRASILEIROS: PARÁFASES PARA O JOVEM LEITOR.

Autor: Mário Feijó Borges Monteiro.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Marília Rothier Cardoso.
Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção de grau de Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Letras do Departamento de Letras da PUC-Rio, 2002.

Resumo:

Parafrasear, nos termos desta dissertação, é contar um enredo já conhecido com o próprio texto. As paráfrases para o público escolar são textos novos construídos sobre enredos antigos, são apropriações textuais. Embora concebidas, divulgadas e comercializadas como produtos de massa, dependem daquele apelo que a tradição literária (canônica) exerce sobre os professores. A relação intertextual que as caracteriza não é marcada pelos jogos referenciais típicos da pós-modernidade. Não devem ser confundidas com pastiches, paródias ou plágios.

No passado, durante a fase de nacionalização do livro escolar no Brasil, recontar histórias já escritas não era motivo de crítica ou desconfiança; era um ato de resistência. Nossa indústria editorial ainda estava em construção, pois nem os editores eram brasileiros. Dependíamos de livros vindos de fora. Traduzir e adaptar os clássicos estrangeiros era contribuir para a “independência” da cultura nacional. O texto traduzido e adaptado para o nosso público escolar, além de transmitir a uma nova geração “as obras universais” (leia-se o cânone ocidental), devia fazê-lo com linguagem viva e apropriada para a juventude nacional. O grande nome deste período é Monteiro Lobato.

No Brasil, o recente lançamento de adaptações escolares baseadas em obras brasileiras e portuguesas constitui um marco histórico no segmento de clássicos adaptados. E coloca a paráfrase escolar como uma questão a ser pensada pela comunidade de professores, teóricos e críticos.

Abstract:

Paraphrases for school-age readers are new texts based on old plots: they are textual appropriations. Although conceived, disseminated and marketed as mass products, they rely on the (canonical) literary tradition’s appeal for teachers. The intertextuality that characterizes them is not marked by the referential games typical of postmodernism. They are not to be seen as cases of pastiche, parody or plagiarism.

A text that is translated and adapted for school-age readers should not only introduce the younger generation to “universal works” (i.e., the Western canon) but also do it in a language that is contemporary and appropriate to the young people of a given time. The recent publication of adaptations of Brazilian works is a landmark in the history of adapted classics, and raises the issue of school paraphrases as one that should be examined by the academic community.

ENSINAR E APRENDER

Atividade (2º bimestre)

1) “Quando veio a público, a poesia de Cabral chocava. A secura da linguagem, o rigor construtivo do poeta que não acreditava em inspiração punha em cheque toda uma tradição. Cabral passou então a ser muito combatido pela crítica e pelos escritores de 1945. Acusavam-no de ser um poeta sem alma que fazia poemas frios, racionalistas, medidos a fita métrica e sem coração.”
(Trecho do documentário Duas Águas – Direção e roteiro: Cristina Fonseca)

a – Solicite aos alunos que façam uma pesquisa sobre os conceitos de poesia. Sugira livros didáticos, literários, enciclopédias, dicionários, sites, vídeos, filmes etc. Podem ser consultados os seguintes livros:
Bosi, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
(Cap. 1 – Imagem, Discurso; cap. 2 – O som no signo; cap. 5 – Poesia.Resistência)

Hegel, Georg W. F. Estética: o belo artístico ou ideal. São Paulo:Nova Cultural, 1991.

Paz, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Introdução e cap. 1 –
O poema).

b – Selecione algumas poesias de João Cabral de Melo Neto e coloque os alunos em contato com o tipo de linguagem e com a construção de poesia desse autor. Por exemplo: “Lição de poesia” do livro O Engenheiro (1945), O Cão sem Plumas (1984) ou “Alguns Toureiros” do livro Paisagens com Figuras (1954).

O AMBIENTE CULTURAL DOS ANOS 30 E AS PRIMEIRAS POESIAS

Apesar de ser primo, pelo lado paterno, do poeta Manoel Bandeira e, pelo lado materno, do escritor e sociólogo Gilberto Freire, até os 15 anos de idade Cabral não havia demonstrado interesse pela literatura mas, sim por futebol. Em 1935 jogava pelo juvenil do América, seu time de devoção. Depois tornou-se campeão pernambucano ao participar do Campeonato Juvenil pelo Santa Cruz.

O interesse pela poesia só viria em 1936 quando descobre uma antologia de poetas modernos e entra em contato com os poemas de Manoel Bandeira, Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade.

Os anos trinta foram de especial importância para a literatura brasileira e caracterizou-se pela literatura regionalista de Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa e pela poesia de Cecília Meirelles e do mineiro Carlos Drummond de Andrade. O movimento modernista de 1922, que se insurgiu contra o parnasianismo, criou espaço para o aparecimento desta importante geração de escritores. Quem se iniciava na literatura na década de 30 tratava de assimilar a melhor contribuição que os poetas e escritores da geração de 30 traziam e, a partir dali, buscar seus próprios caminhos.

2) Tendo em vista a pesquisa empreendida sobre o conceito de imagem na poesia (Bosi, Octavio Paz), propor que os alunos ilustrem alguns poemas tais como: “As Nuvens”, “A Bailarina” e “O Engenheiro” do livro O Engenheiro (1945). Sugerir, em seguida, a construção de um mural contendo as ilustrações e o trecho do poema a que dizem respeito.

3) A obra de João Cabral de Melo Neto está profundamente relacionada ao meio geográfico e social do qual provém. Proponha um estudo da biografia e da carreira literária do poeta.

Em sua pesquisa sobre a vida de João Cabral, os alunos devem se deparar com o fato de que ele, como diplomata, morou vários anos na Espanha. Propor, a partir disso, uma comparação entre seus poemas que focalizam o ambiente nordestino e os centrados na paisagem espanhola. Características como o sol tórrido, o solo seco, o toureiro/cabra macho, entre outros, aproximam paisagens aparentemente tão diversas).

4) Considerando a influência da literatura de cordel nordestina sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto, propor um estudo que tenha como tema a literatura de cordel, ressaltando seu aspecto social e de registro histórico da vida nordestina.

5) “Em O Rio (1953), … A voz poética é a do rio, que narra suas experiências históricas e sociais em um tom de “prosa” bem popular”.(Campedelli, S.Y.; Abdala Jr., Benjamin . Literatura Comentada)

Após uma análise do poema, resgatando e tentando identificar cada um dos momentos citados durante a narrativa, os alunos deverão escolher outro rio ou até mesmo uma rodovia que passe por diferentes locais (exemplo: rio Tietê, rio São Francisco, rio Itajaí, rodovia Belém-Brasília etc.) e tentar compor um poema que descreva esses locais, semelhantemente ao que fez João Cabral em relação ao rio Capibaribe.

6) Propor a leitura do livro Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos e comparar com o auto Morte e Vida Severina (1965), de João Cabral de Melo Neto, no que diz respeito à linguagem e ao conteúdo.

7) Abaixo foram transcritos dois poemas, um de Manuel Bandeira e outro de João Cabral de Melo Neto. Após a leitura, proponha aos alunos que tentem descobrir semelhanças e diferenças entre eles. Leia-os também em voz alta com os alunos para que percebam a diferença de ritmo entre os poemas. Seria interessante que os alunos atentassem, por exemplo, para o fato de os versos de Bandeira, serem em sua maioria mais longos que os de Cabral. É como se Bandeira se deixasse invadir pelo fluxo das lembranças, enquanto João Cabral parece manter maior distanciamento.

Poesia de Manuel Bandeira

Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois –
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de Dona
[Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

Coelho sai!
Não sai!
A distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muito rosa
Terá morrido em botão…)

De repente
nos longes da noite
um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva se ser menino porque não podia ir ver o fogo

Rua da União…
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade…
…onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora…
…onde se ia pescar escondido
Capibaribe
-Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redomoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas

Eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos
Capibaribe
– Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas com o xale vistoso de pano
[da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo…

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife…
Rua da União…
A casa de meu avô…
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife…
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô
(Em Estrela da vida inteira – 1966)

Poesia de João Cabral de Melo Neto

Volta a Pernambuco
A Benedito Coutinho

Contemplando a maré baixa
nos mangues do Tijipió
lembro a baía de Dublin
que daqui já me lembrou.

Em meio à bacia negra
desta maré quando em cio,
eis a Albufera, Valência,
onde o Recife me surgiu.

As janelas do cais da Aurora,
olhos compridos, vadios,
incansáveis, como em Chelsea,
vêem rio substituir rio,

e essas várzeas de Tiuma
com seus estendais de cana
vêm devolver-me os trigais
de Guadalajara, Espanha.

Mas as lajes da cidade
não me devolvem só uma,
nem foi uma só cidade
que me lembrou destas ruas.

As cidades se parecem
nas pedras do calçamento
das ruas artérias regando
faces de vário cimento,

por onde iguais procissões
do trabalho, sem andor,
vão levar o seu produto
aos mercados do suor.

Todas lembravam o Recife,
este em todas se situa,
em todas em que é um crime
para o povo estar na rua,

em todas em que esse crime,
traço comum que surpreendo,
pôs nódoas de vida humana
nas pedras do pavimento.
( Em Paisagens com Figuras -1954)

8) Ler o auto Morte e Vida Severina (1965) e fazer relações com o contexto social do nordeste. Proponha também a encenação da peça toda ou parte dela.

9) Abaixo foram transcritos três poemas: um de Carlos Drummond de Andrade, um de Manuel Bandeira e outro de João Cabral de Melo Neto. Leia-os e tente achar pelo menos um elemento em comum.

Poema de Carlos Drummnod de Andrade

Desaparecimento de Luísa Porto

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
à Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.

Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva, que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.

Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta,
meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.

Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
(Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.

Se, todavia, não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco à cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,
a qual não dá notícia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.

Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de Janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem,
leu no Diário Mercantil,
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.

Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz íntima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho de alma.

Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre
que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno,
filial
e do próximo.

Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei,
as ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
o olhar desviado e terno,
canção.

A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providências.

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá:
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a cólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum proverá.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos.
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intata nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
cravada no centro da estrela invisível
Amor.
(Em Reunião – 1969)

Poema de Manuel Bandeira

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão
[sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
(Em Estrela da vida inteira – 1966)

Poema de João Cabral de Melo Neto

Num monumento à aspirina

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

*

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
(Em A educação pela pedra – 1966)

Ficha Técnica Ensinar e Aprender:
Atividades pedagógicas: Vera Denise Barba

Jorge de Lima
Graciliano Ramos
Guimarães Rosa
Cecília Meireles

O Carlos Drummond de Andrade, quando eu o li ainda no Recife, foi uma revelação. Eu tenho a impressão de que eu escrevo poesia porque eu li o primeiro livro dele “Alguma Poesia”. Foi ele quem me mostrou que ser poeta não significava ser sonhador, que a ironia, a prosa cabiam dentro da poesia.
João Cabral de Melo Neto

E foi esse o percurso de João Cabral. Através da poesia abre-se para ele todo o universo da arte em que ele mergulha decididamente, transformando-se num grande intelectual.

Em 1938, em Recife havia um grupo de intelectuais interessados em literatura e foi com eles que Cabral primeiro dialogou. Uma roda literária que circulava no Café Lafaiete e se reunia em torno de Ville Levy e do pintor Vicente do Rego Monteiro.Ville Levy dava especial atenção aos surrealistas e incentivava os jovens escritores para que lessem novos autores principalmente os franceses.

Cabral, então, começa a se influenciar pela poesia de Beaudelaire e Mallarmé. Mas foram os ensaios críticos de arquitetura, de Paul Valéry, que mais influenciaram o pensador e intelectual João Cabral de Melo Neto. Nessa mesma época foi construída a primeira grande obra cívica da arquitetura moderna brasileira, que é o prédio do Ministério da Educação, de Le Corbusier, Niemayer, dos irmãos Roberto e Lúcio Costa com quem, finalmente, nós o Brasil ingressava na arquitetura moderna e João Cabral esteve inserido nesse clima.

João Cabral era um autodidata e não se animou a fazer nenhum curso superior. Começou a trabalhar. Surgem os sintomas de uma forte dor de cabeça, celebrizada em versos (Num monumento à aspirina) e que o acompanharia ao longo da vida, fragilizando sua saúde. Num período de hospitalização Cabral intensificou seu interesse pela poesia; datam dessa época seus primeiros poemas.

João Cabral de Mello Neto

A poesia de João Cabral de Mello Neto é difícil para o grande público porque não dialoga apenas com o leitor comum mas, também com os realizadores de poesia. A principal temática de Cabral é a reflexão do próprio fazer poético. Sua poesia é auto-explicativa e ninguém melhor do que ele mesmo, através de sua obra, se analisou.

Em sintonia com a corrente evolutiva da melhor literatura contemporânea parte da poesia de Cabral reflete uma postura crítica sobre o ato de escrever e são descrições ou mesmo reflexões, quase sempre indiretas, sobre o fazer literário de outros escritores como a americana Marianne More , o português Cesário Verde, os franceses Beaudelaire, Paul Valéry e Mallarmé.

Marianne Moore
Beaudelaire
Paul Valéry
Mallarmé

Para o poeta Haroldo de Campos sempre existiram poetas críticos importantes na literatura mundial como Dante, Fernando Pessoa e Goethe. O romantismo alemão produziu um grande número de poetas críticos e Goethe é seu maior representante. Mas, exitem também os importantíssimos poetas críticos de língua inglesa como Colleridge, T.S.Elliot e Ezra Pound. O escritor russo Boris Pasternak ( Prêmio Nobel de Literatura em 1958 – “Dr. Givago” ) e Otávio Paz, que o poeta Haroldo de Campos considera “o grande poeta crítico na América Latina”, são outros exemplos.

João Cabral de Mello Neto é um poeta construtivista, ligado por temperamento às formas visuais de expressão fato que o levou a, desde cedo, se interessar pela arquitetura e pelas artes plásticas. Ele valoriza a forma visual dos poemas, a geometrização. Propõe para a poesia um verso construído, desmistificando o ato de “criar com inspiração”.

Sua poesia dialoga com artistas plásticos contemporâneos como Mondrian ou Juan Miró e tem afinidade com os cubistas. Além das influências literárias, seus poemas são inspirados nas teorias arquitetônicas de Le Corbusier e nas estruturas das artes plásticas construtivas. Seus poemas são trabalhados em blocos ou “quadras-blocos” que funcionam como os retângulos de um quadro de Mondrian.

Trechos do poema
O CÃO SEM PLUMAS – “Discurso do Capibaribe”
( O cão sem plumas – 1949 – 1950)
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

ouça o poema interpretado por João Cabral
Como ouvir?

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de [secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia,
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

Por temperamento, apesar de ter vivido em meio à exuberância sonora dos ritmos pernambucanos, João Cabral de Melo Neto foi um poeta
não-musical, avesso principalmente à melodia e à musicalidade do verso. Através de rigoroso trabalho de linguagem e construção, a dura poesia de Cabral , feita de “pedras” e a “palo seco”, como gostava de dizer, inspira-se na aridez geográfica e humana do sertão para se tornar, também ela, uma poesia seca e exterior.

Sobre o gosto da leitura na escola

——————————————————————————–

Miriam Mermelstein

A autora enumera alguns pressupostos para a introdução dos alunos no mundo da literatura, como a importância de ter um ambiente cultural no qual o livro esteja presente, de ampliar o repertório do aluno apresentando-o a uma diversidade de gêneros textuais, de ensinar a ler com prazer, de respeitar as escolhas dos jovens diante do universo desvelado pelos livros. Aborda ainda a estreita ligação entre o ler e o escrever, oferecendo sugestões de exercícios para o desbloqueio da escrita criativa.

O professor de literatura e crítico literário, C. F. Moisés, com quem estudo há 10 anos, na apresentação de seu livro “Poesia não é difícil” cita questões muito comuns de serem ouvidas na escola: ‘Como posso gostar de poesia se não a entendo?’ ‘E como entender sem gostar?’ (1)

Ficamos em um círculo vicioso, uma armadilha, afirma o autor, pois como saber se gostamos (ou não) se não a conhecemos? Aí entra o papel do professor educador e mediador da cultura em introduzir novos conteúdos e novas experiências no mundo do aluno.

Mas como? Eis a questão crucial. O objetivo deste texto é enumerar alguns pressupostos e algumas atividades de linguagem como idéias a serem adaptadas por vocês, professores, em seus planos.

Um pressuposto refere-se à significação de um ambiente cultural na formação do leitor. Desde muito pequenos, os alunos podem ‘ler’ textos, entendido o verbo de forma não literal: quando o professor lê para a classe, quando o aluno conta suas vivências na roda, quando o aluno ouve o colega contar ou descrever algo, quando o aluno ouve uma cantiga e sua letra, quando o aluno ‘lê’ ilustrações de um livro, quando ele tem acesso constante aos livros da sala ou da biblioteca, quando sabe que a leitura é uma atividade valorizada pelo professor.

Sabemos das dificuldades de obtenção e veiculação de livros nas escolas. Bibliotecas sem bibliotecários, livros não tombados e, portanto, não passíveis de circulação, mas sabemos também que existem outras formas de contornar essa situação. Saraus, pedidos em editoras, mutirões do livro, de organização das salas de leitura, feiras culturais, intercâmbios entre classes, cartas a autoridades competentes, etc. são alguns dos recursos que a escola deve utilizar para garantir o acesso do aluno ao livro.

Outro pressuposto refere-se ao grau de complexidade dos textos e das atividades com textos. Não devemos poupar os alunos de novos desafios. A função da escola é ensinar novidades, ampliar o repertório do aluno com exposição de maior diversidade de gêneros textuais. A dosagem e as exigências serão planejadas considerando que a formação do leitor é um processo de amadurecimento. Quanto antes começar, mais sentido fará na vida do aluno-leitor.

O livro é um objeto inserido em um contexto. Tem autoria, propósito, um tempo e um espaço delimitado (de criação e de circulação). Saber sobre o autor e sua época, conhecer suas condições de produção ajuda a inferir sobre outros tempos e outros espaços. Um exercício interessante é o de comparar textos literários de uma mesma temática, mesmo local e épocas diferentes, ou textos oriundos de culturas diferentes abordando o mesmo tema. “É a polifonia e a pluralidade contra o monólogo e a palavra autoritária”. (Sonia Kramer) (2) Intertextualidade. Por exemplo, mixar conteúdos da História com textos literários também é um recurso em que ambas as áreas ficam enriquecidas.

Sabemos que a escola tem um plano a cumprir e dentro dele as atividades de linguagem que devem ser realizadas e avaliadas. Ensinar a ler com prazer, a tirar proveito pessoal da leitura esbarra quase sempre na questão do número de alunos na sala para acompanhar e na dificuldade em avaliar objetivamente o aproveitamento, o prazer e a fruição. Mas sem paixão não avançamos. Principalmente quando pisamos na seara da literatura. Ensinar as características estruturais dos gêneros, as combinações lingüísticas possíveis em um texto, a organização das palavras, a comunicação de idéias não devem matar o prazer, não podem impedir que a leitura faça sentido pessoal e íntimo na vida do aluno.

Outro pressuposto é respeitar a escolha do aluno. Imaginem uma pequena cidade em que seus habitantes só conhecem comida brasileira. Vivem tranqüilos sem saber ou sem querer saber o que existe de diferente lá fora. Aí chega um grupo de imigrantes do Oriente trazendo seus costumes, temperos e especiarias. O que pode acontecer?

A – os dois grupos não se comunicarem.

B – os dois grupos trocarem suas especificidades e criarem um terceiro grupo.

C – os dois grupos aceitarem as mútuas contribuições, mas manterem sua identidade.

Esse é um exemplo do que pode acontecer com quem tem contato com o conhecimento. Transformação. Mas não acontece de imediato, nem uniformemente. É um processo e, como tal, é variável. Especificamente na arte, e dentro dela na literatura, esse processo tem finalidade de aumentar a autoconsciência humana. “A literatura é um autêntico e complexo exercício de vida, que se realiza com e na linguagem”. Nelly N. Coelho (3)

As possibilidades combinatórias são muitas e cada um responde de acordo com sua história, seus sentimentos e possibilidades.

Imaginem agora se todas as pessoas da mesma cidade só conhecessem histórias de saci e lobisomem. Chega na cidade o grupo do Oriente trazendo histórias de califas e odaliscas, nunca antes ouvidas.

Respondam: o que pode acontecer?

Essas analogias nos permitem entender o que muda quando o novo penetra em nosso mundo, as dificuldades de aceitação, o acréscimo que pode significar e a mudança que pode provocar.

Existe uma estreita relação entre produção de textos e leitura. Segundo Citelli (5), a escrita constante pode despertar maior interesse pela leitura. O pressuposto subjacente é que durante o percurso da escrita, os alunos tendem a se expressar cada vez melhor com menos clichês e mais identidade.

Nem tudo que nos apresentam ou que conhecemos tem unanimidade. Podemos falar em tendências, cada classe social, cada bairro, cada sala de aula têm características próprias pois vivem histórias de vida similares. Assim, o professor pode dizer: ‘- minha classe gosta de livros de aventuras’, ou ‘minha classe adora gibis’, como um bloco, mas devemos oferecer opções e respeitar as diferenças.

A leitura e a escrita são, portanto, construídas ao longo da vida escolar com respeito à individualidade, incentivo à narração pessoal, desejo de ser lido ou ouvido.

Os passos da escrita criativa:

1 – narrar e escrever tudo e sempre como uma rotina escolar.

2 – encontrar com o professor e colegas um assunto de interesse para escrever.

3 – começar com o que Lucy McCalkins (4) chama de ensaio, uma primeira escrita.

4 – esboço ou desenvolvimento da escrita. “Ponha no papel”, diz o escritor W. Faulkner, “aproveite a chance. Pode ser mau, mas este é o único modo pelo qual você poderá fazer algo realmente bom”.

5 – revisão – ver novamente, ler para os colegas e professor e reescrever em todas as etapas.

6 – edição – fazer o texto excrito circular, mesmo entre os colegas. Quem escreve, escreve para ser lido e, às vezes, a escola engaveta e só corrige os escritos e esquece do seu autor.

Vamos descrever alguns exemplos de exercícios de desbloqueio da escrita criativa:

1 – o professor sugere: “Abri a gaveta e encontrei…”. O aluno continua o texto escrevendo com: palavras que tenham 2 ou 3 sílabas, comecem com p, m ou s, rime, etc.

2 – o professor leva um texto com ausência de pontuação para os alunos lerem e pontuarem.

3 – o professor dá um poema e pede paráfrase com modificações do personagem, do cenário, etc.

4 – imaginar um personagem não humano, descrevê-lo com características humanas.

5 – pensar o que existe no mar e adjacências e escrever um período combinando palavras pelo parentesco sonoro, ex: areia com ceia, alga com algo.

6 – o professor escolhe algumas palavras, ex. – dia – e os alunos devem atribuir um sentido comum e um sentido figura à palavra.

7 – ad-verso: o professor dá dois versos de uma quadra e pede que os alunos emendem com outros dois versos de um outro assunto.

Esses exercícios podem ser trocados, completados em duplas, dramatizados, tec. Nessa etapa ainda não está em pauta o conteúdo, mas o desbloqueio da escrita.

Referências bibliográficas e sugestões de links:

1 – Poesia não é difícil, Moisés, Carlos Felipe ed. Artes e Ofícios 1996
2 – Diálogos com Bakhtin, Castro, Faraco, Tezza (org) cap. 7 Kramer, Sonia ed. UFPR 2001
3 – Literatura: arte, conhecimento e vida, Coelho, Nelly Novaes ed. Peirópolis 2000
4 – A arte de ensinar a escrever, Calkins, Lucy McCormick ed. Artmed 1986
5 – Produção e leitura de textos, v. 7, Citelli, Beatriz ed. Cortez 2001
6 – Trabalhando com poesia, Beraldo, Alda ed. Ática 1990
7 – Oficina de linguagem, Condemarín, M., Galdames, V., Medina, ª ed. Moderna 2002
8 – http://www.ulissestavares.com
9 – http://www.anamariamachado.com
10 – http://www.clubedoskaras.kit.net
11 – http://www.paralelos.org
12 – http://www.lyrics.com
13 – http://www.luispeaze.com
14 – http://www.snopes.com

*Miriam Mermelstein é pedagoga e autora de obras de Literatura Infantil, tendo ministrado as oficinas “A poesia em sala de aula” e “Abraçando a palavra” no CRE Mario Covas, durante o 1º semestre de 2004

Para mais informações clique em AJUDA no menu.

Imprimir

Adicionar aos favoritos

> Sistema InfoPrisma
> Eventos da SEE SP
> Educação em Debate
> Programas e Ações do MEC
> Programas e Ações da SEE SP
> Programas e Ações de Outros Estados
> Programas e Ações de Outros Países
> Programas e Ações do Terceiro Setor
> Pesquisa Educacional e Estatísticas
> Profissionais da Educação
> Legislação Educacional
> Ensino Fundamental
> Ensino Médio
> Educação de Jovens e Adultos
> Escola de Tempo Integral
> Legislação de Ensino Fundamental e Médio:
Sistematização e Operacionalização
> Universidades Federais e Estaduais
> Desenvolvimento Pessoal
> Entrevistas / Palestras
> Progressão Continuada
> Educação Inclusiva
> Educação Especial
> Escola dos Nossos Sonhos
> Gestão Pedagógica
> Avaliação
> Desenvolvimento e Aprendizagem
> Educação Infantil
> Currículo
> Alfabetização
> Leitura e Literatura
> Arte-Educação
> Comunicação e Educação
> Educação e Novas Tecnologias
> Reflexão
> Ambiente de Aprendizagem
> Direção e Coordenação
> Conselho de Classe/Série
> Planejamento e Proposta Pedagógica
> Pedagogia de Projetos
> Ambiente de Convivência
> Educação Continuada
> Relação Escola/Comunidade
> Externa
> Interna
> Jogos e Brincadeiras
> Interdisciplinaridade
> Ética
> Meio Ambiente
> Pluralidade Cultural
> Trabalho e Consumo
> Saúde e Educação Sexual
> Propostas Curriculares
> Educação Infantil
> Ensino Fundamental
> Ensino Médio
> Hinos Brasileiros
> Matérias Especiais
> Roteiros CRE
> 1ª a 4ª Séries
> 5ª a 8ª Séries
> Artigos
> Biologia
> Conexões Interdisciplinares
> Educação Física
> Filosofia
> Física
> Geografia
> História
> Legislação
> Língua Estrangeira
> Língua Portuguesa
> Matemática
> Planos de Aula e Projetos
> Publicações
> Química
> Uma Casa que virou C R E
> Jornais e Revistas
> O Professor Escreve sua História
> Artes
> Cartão Postal
> Literatura
> Cênicas
> Música
> Artes Plásticas
> Museus Internacionais
> Museus Brasileiros
> Provimento de Cargos
> Escolares

A ABÓBODA
Alexandre Herculano
CAPÍTULO I –
O cego
O dia 6 de Janeiro do anno da Redempção 1401 tinha amanhecido puro e sem nuvens: os campos,
cubertos aqui de relva, acolá de searas, que cresciam a olhos vistos com o calor benefico do sol,
verdejavam ao longe, ricos de futuro para o pegureiro e para o lavrador. Era um destes formosissimos
dias de inverno, mais gratos que os do estio, porque sao de esperança, e a esperança vale mais do que
a realidade; destes dias, que Deus so concedeu aos paizes do occidente, em que os raios do sol, que
comeca a subir na ecliptica, estirando-se vividos e tremulos por cima da terra, ennegrecida pela
humidade, errando por entre os troncos pardos dos arvoredos, despidos pelas geadas, se assemelham a
um bando de creancas no primeiro vico da vida a folgar e a rolar-se por cima da campa, sobre a qual
ha muito sussurrou o ultimo ai da saudade, e que invadiram os musgos e abrolhos do esquecimento.
Era um destes dias antipathicos aos poetas ossianico-regelo-nevoentos, que querem fazer-nos acceitar
como cousa mui poetica
Esses gelos do norte, esses brilhantes
Caramellos dos tópes das montanhas, sem se lembrarem de que
Do sol do meio-dia aos raios vividos,
Parvos!—se lhes derretem: a brancura
Perdem co’a nitidez, e se convertem
De lucidos cristaes em agua chilre;
destes dias, emfim, em que a natureza sorri como a furto, rasgando o denso veu da estação das
tempestades.
No adro do mosteiro de Santa Maria da Victoria, vulgarmente chamado da Batalha, fervia o povo
entrando para a nova igreja, que de mui pouco tempo servia para as solemnidades religiosas. Os
frades dominicanos, a quem elrei D. João I tinha doado esse magnifico mosteiro, cantavam a missa do
dia debaixo daquellas altas abobadas, onde repercutiam os sons do orgam, e os ecchos das vozes do
celebrante, que entoava os kyries.
Mas não era por ouvir a missa conventual que o povo se escoava pelo profundo portal do templo para
dentro do recincto sonoro daquella maravilhosa fabrica: era por assistir ao auto da adoração dos reis,
que com grande pompa se havia de celebrar nessa tarde dentro da igreja, e diante do rico presepe que
os frades tinham alevantado juncto ao arco da capella do fundador entao apenas comecada. A
concorrencia era grande, porque os habitantes da Canoeira, d’Aljubarrota, de Porto-de-Mos e dos mais
logares vizinhos, desejosos de ver tao curioso espectaculo, tinham deixado desertas as povoacoes para
vir povoar por algumas horas o ermo do mosteiro. Aprazivel cousa era o ver, descendo dos outeiros
para o valle por sendas torcidas, aquellas multidoes, vestidas de cores alegres, e semelhantes no seu
todo a serpentes immensas, que, transpondo as assomadas, se rolassem pelas encostas abaixo,
reflectindo ao longe as cores variegadas da pelle luzidia e lubrica. Atravessando a planicie, em que
avultava o mosteiro, passava o rio Lena, cuja corrente tinham tornado caudal as chuvas da primeira
metade da estação invernosa.
No campo contiguo ao edificio, aqui e acolá, alevantavam-se casarias irregulares, algumas fechadas
com suas portas, outras apenas cubertas de madeira, e abertas para todos os lados, a maneira de
simples telheiros: as casas fechadas e reparadas contra as injurias do tempo eram as moradas dos
mestres e artifices que trabalhavam no edificio: debaixo dos telheiros viam-se, n’uns pedras so
desbastadas, n’outros algumas onde se comecavam a divisar lavores, n’outros, emfim, pedacos de
cantaria, em que os mais habeis esculptores e entalhadores já tinham estampado os primores dos seus
delicados cinzeis. Mas o que punha espanto era a innumeravel porcao de pedras, lavradas, pulidas, e
promptas para serem collocadas em seus logares, que jaziam espalhadas pelo grandissimo terreiro,
que ao redor do edificio se alargava para todos os lados: maineis rendados, pecas dos fustes, capiteis
gothicos, lacarias de bandeiras, cordoes de arcadas, ahi estavam tombados sobre grossas zorras, ou
ainda no chao endurecido pelo continuo perpassar de trabalhadores, officiaes, e mais obreiros desta
maravilhosa machina. Quem de longe olhasse para aquelle extenso campo, alastrado de tantos
primores de esculptura, julgara ver o assento de uma cidade antiquissima, arrasada pela mao dos
homens ou dos seculos, de que so restara em pe um monumento, o mosteiro. E todavia, esses que
pareciam restos de uma antiga Balbek não eram senao algumas pedras que faltavam para o
acabamento d’um convento de frades dominicanos, o convento de Sancta Maria da Victoria,
vulgarmente chamado a Batalha!
Um quadrante de pedra, assentado em um canto do adro, apontava meio-dia. A igreja tinha sorvido
dentro do seu seio desmesurado os habitantes das proximas povoacoes, e de todo o ruido e algazarra
que poucas horas antes soava por aquelles contornos, apenas traspassavam pelas frestas e portas do
templo os sons do orgam, soltando a espacos suas melodias, que sussurravam e morriam ao longe,
suaves como um pensamento do ceu.
Nao estava, porem, inteiramente ermo o terreiro da frontaria do edificio. Assentado sobre um troco de
fuste, com os pes ao sol, e o resto do corpo resguardado de seus raios ardentes pela sombra de um
telheiro, a qual se comecava a prolongar para o lado do oriente, via-se um velho, veneravel de
aspecto, que parecia embebido em profundas meditacoes: pendia-lhe sobre o peito uma comprida
barba branca: tinha na cabeca uma touca foteada, um gibao escuro vestido, e sobre elle uma capa
curta ao modo antigo. A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas feicoes
revelavam que dentro daquelles membros tremulos e enrugados morava um animo rico de alto
imaginar: as faces do velho eram fundas, as macans do rosto elevadas, a fronte espacosa e curva, e o
perfil do rosto quasi perpendicular. Tinha a testa enrugada como quem vivera vida de continuo
pensar, e correndo com a mao os lavores de pedra, sobre que estava assentado, ora carregando o
sobrolho, ora deslisando as rugas da fronte, reprehendia ou approvava com eloquencia muda os
primores ou as imperfeicoes do artifice, que copiara a ponta de cinzel aquella pagina do immenso
livro de pedra, a que os espiritos vulgares chamam simplesmente o mosteiro da Batalha.
Emquanto o velho scismava sosinho, e palpava o canto subtilmente lavrado, sobre que repousava os
membros entorpecidos, a portaria do mosteiro, que perto d’alli ficava, outras figuras e outra scena se
viam. Dous frades estavam em pe no limiar da porta, e altercavam em voz alta: de vez em quando,
pondo-se nos bicos dos pes, e estendendo os pescocos, parecia quererem descubrir no horisonte, que
as cumiadas dos montes fechavam, algum objecto: depois de assim olharem um pedaco, encolhiam os
pescocos, e voltando-se um para o outro, travavam de novo renhida disputa, que levava seus visos de
não acabar.
“Oh homem!—dizia um dos dous frades, a quem a tez macilenta e as barbas e cabellos grisalhos
davam certo ar de auctoridade sobre o outro, que mostrava nas faces coradas e cheias, e na cor negra
da barba povoada e revolta, mais vigor de mocidade.—Ja disse a vossa reverencia, que elrei me
escreveu de seu proprio punho que viria assistir ao auto da adoração dos reis, e de caminho veria a
casa do capitulo, a que hontem mestre Ouguet mandou tirar os simples que sustentavam a abobada.”
“E nego eu isso?—replicou o outro frade.—O que digo e que me parece impossivel, que elrei venha
de feito, conforme a vossa paternidade prometteu em sua carta. Ha muito que la vae o meio-dia; daqui
a pouco tocara a vesperas e as duas por tres e noite. não vedes, padre mestre, a que horas vira a acabar
o auto? E este povo, este devoto povo que ahi esta, que ahi vem, ha-de ir com o escuro por esses
descampados e serras com mulheres, com raparigas…”
“Ta, ta—interrompeu o prior.—Temos luar agora, e vao de consum. O caso não e esse, padre
procurador, o caso e se esta tudo aviado para agasalharmos elrei e os de sua companha.”
“Oh la, quanto a isso, nada falta. Desde hontem que tenho tido tanto descanco como hoste ou
cavalgada de castelhanos diante das lancas do Condestavel: o peior e que, segundo me parece, e dizei
o que quizerdes, opus et oleum perdidi.”
“Nao falta quem tarda: elrei não quebrara a palavra ao seu antigo confessor. O que quero e que todos
os novicos e coristas, que tem de fazer suas representacoes no auto, estejam a ponto e vestidos, para
elle comecar logo que sua senhoria chegue.”
“Nada receeis; que tudo esta preparado: do que duvido e de que comecemos, se por elrei houvermos
de esperar.”
O frade mais velho fez a estas palavras um signal de impaciencia, e sem dar resposta ao seu
pyrrhonico interlocutor, estendeu outra vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a
extremidade do habito uma especie de sobreceu para resguardar os olhos dos raios do sol, que, já
muito inclinado para o occidente, batia de chapa no portal onde os dous reverendos estavam
altercando.
Porem, meio descorocoado, o dominicano logo abaixou os olhos: nem o minimo vulto se enxergava
no horisonte; e neste abaixar de olhos viu o cego, que estava ainda assentado sobre o fuste da
columna.
Para escapar talvez as reflexoes do seu companheiro, o reverendo bradou ao velho:
“Oh la, mestre Affonso Domingues, bem aproveitaes o soalheiro! não vos quero eu mal por isso; que
um bom sol de inverno vale, na idade grave, mais que todos os remedios de longa vida, que em seus
alforges trazem por ahi os physicos.”
Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal, e encaminhou-se para o cego.
“Quem e que me fala?—perguntou este, alcando a cabeca.
“Fr. Lourenco Lamprea, vosso amigo e servidor, honrado mestre Affonso. Tao esquecida anda já
minha voz em vossas orelhas, que me não conheceis pela toada?”
“Perdoae-me, mui devoto padre prior:—atalhou o velho, tenteando com os pes o chao para erguer-se,
no momento em que Fr. Lourenco Lamprea chegava juncto delle seguido do seu confrade Fr. Joanne,
procurador do mosteiro:—perdoae-me! Foi-se o ver, vae-se o ouvir. Em distancia, já não acerto a
distinguir as falas.”
“Estae quedo; estae quedo, mestre Affonso:—disse Fr. Lourenco, segurando o cego pelo braco:—O
indigno prior do mosteiro da Victoria não consentira que o mui sabedor architecto e imaginador
Affonso Domingues, o creador da oitava maravilha do mundo, o que tracou este edificio doado pelo
virtuoso de grandes virtudes rei D. João a nossa ordem, se alevante para estar em pe diante de pobre
frade…”
“Mas esse religioso—interrompeu o cego—e o mais abalisado theologo de Portugal, o amigo do mui
excellente doutor João das Regras, e do grande Nunalvares, e privado e confessor d’elrei: Affonso
Domingues e apenas uma sombra de homem, um troco de capitel partido e abandonado no po das
encruzilhadas, um velho tonto de quem já ninguem faz caso. Se vossa caridade e humildosa condicao
vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, não achareis n’isso muitos de vossa
igualha.”
“De merencorio humor estaes hoje:—disse o prior sorrindo.—Nao so eu vos amo e venero: elrei me
fala sempre de vos em suas cartas. não sois cavalleiro de sua casa? E a avultada tenca que vos
concedeu em paga da obra que tracastes, e dirigistes, em quanto Deus vos concedeu vista, não prova
que não foi ingrato?”
“Cavalleiro!?”—bradou o velho—”Com sangue comprei essa honra! Comigo trago a escriptura.”—
Aqui mestre Affonso, puxando com a mao tremula as atacas do gibao, abriu-o e mostrou duas largas
cicatrizes no peito.—”Em Aljubarrota foi escripto o documento a ponta de lanca por mao castelhana:
a essa mao devo meu foro, que não ao Mestre d’Aviz. já la vao quinze annos! Entao ainda estes olhos
viam claro, e ainda para este braco a acha d’armas era brinco. Elrei não foi ingrato, dizeis vos,
veneravel prior, porque me concedeu uma tenca!?—Que a guarde em seu thesouro; porque ainda as
portas dos mosteiros e dos castellos dos nobres se reparte pao por cegos e por aleijados.”
Proferindo estas palavras, o velho não pode continuar: a voz tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos
olhos embaciados cahiam-lhe pelas faces encovadas duas lagrymas como punhos. A Fr. Lourenco
tambem se arrasaram os olhos d’agua, Frei Joanne, esse olhou fito para o cego durante algum tempo
com o olhar vago de quem não o comprehendia. Depois a idea da tardanca d’elrei e da tardanca do
auto, que entrando pelas horas de ceiar e dormir iria fazer uma brecha horrorosa na disciplina
monastica, veio desperta-lo como espinho pungente. Comecou a bufar e a bater o pe, semelhante ao
corredor brioso do livro de Job e da Eneida. Entretanto o architecto havia-se posto em pe: um
pensamento profundamente doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada, e houve um
momento de silencio. Por fim segurando com forca a manga do habito de Fr. Lourenco, disse-lhe:
“Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado da Divina Comedia do florentino
Dante.”
“Li ja, e mais de uma vez:—respondeu o prior:—E obra prima daquellas a que os gregos chamavam
epos, id est, enarratio, et actio segundo Aristoteles; e se não houvesse nessa escriptura algumas
ousadias contra o papa…”
“Pois sabei, reverendo padre,—proseguiu o architecto, atalhando o impeto erudito do prior,—que este
mosteiro, que se ergue diante de nos, era a minha Divina Comedia, o cantico da minha alma: concebio
eu; viveu comigo largos annos, em sonhos e em vigilia: cada columna, cada mainel, cada fresta,
cada arco era uma pagina de cancao immensa; mas cancao que cumpria se escrevesse em marmore,
porque so o marmore era digno della: os milhares de lavores que tracei em meu desenho eram
milhares de versos; e porque ceguei arrancaram-me das maos o livro, e nas paginas em branco
mandaram escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporaes estavam mortos, não o estavam os
do espirito. O estranho a quem deram meu cargo não me entendia, e ainda hoje estes dedos
descobriram nessa pedra que o meu alento não a bafejara. Que direito tinha o Mestre d’Aviz para
sulcar com um golpe do seu montante a face de um archanjo que eu creara? Que direito tinha para me
espremer o coração debaixo dos seus capatos de ferro? Dava-lh’o o ouro que tem dispendido? O ouro!
… não! OMeslred’Aviz sabe que o ouro e vil; so nobre e puro o genio do homem. Enganaram-no:
vassallos houve em Portugal, que enganaram seu rei! Este edificio era meu; porque o gerei; porque o
alimentei com a substancia de minha alma; porque eu necessitava de me converter todo nestas pedras
pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar perpetuamente por essas columnas, e
por baixo dessas arcarias. E roubaram-me o filho da minha imaginação, dando-me uma tenca!… Com
uma tenca paga-se a gloria e a immortalidade? Agradeco-vos, senhor rei, a merce!… sois em verdade
generoso … mas o nome de mestre Ouguet enredar-se-ha no meu, ou talvez sumira este no brilho de
sua fama mentida…”
O cego tremia de todos os membros: a vehemencia com que falara lhe exhaurira as forcas: os joelhos
vergaram-lhe, e assentou-se outra vez em cima do fuste. Os dous frades estavam em pe diante delle.
“Estaes mui perturbado pela paixao, mestre Affonso—disse Fr. Lourenco depois de uma larga pausa
—por isso menoscabaes mestre Ouguet, que era talvez o unico homem que ahi havia capaz de vos
substituir. Quanto a vos, pensaram os do conselho d’elrei que deviam propor-lhe vos desse repouso e
honrado sustentamento para os cansados dias. Ninguem teve em mente offender o mais sabedor e
experto architecto de Portugal, cuja memoria sera eterna, e nunca offuscada.”
“Obrigado—atalhou o velho—aos conselheiros d’elrei pelos bons desejos que em meu prol tem. Sao
politicos, almas de lodo, que não comprehendem senao proveitos materiaes. Dao-me o repouso do
corpo, e assassinam-me o da alma! Acerca de mestre Ouguet, não serei eu quem negue suas boas
manhas e sciencia de edificar: mas que ponha elle por obra suas tracas, e deixem-me a mim dar vulto
as minhas. E demais: para entender o pensamento do mosteiro de Sancta Maria da Victoria cumpre
ser portuguez; cumpre ter vivido com a revolucao, que poz no throno o Mestre d’Aviz; ter tumultuado
com o povo defronte dos pacos da adultera; ter pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido cm
Aljubarrota. não e este edificio uma obra de reis, ainda que por um rei me fosse encommendado seu
desenho e edificação, mas nacional, mas popular, mas da gente portugueza, que disse: não seremos
servos do estrangeiro, e que provou seu dicto. Mestre Ouguet, escholar na sociedade dos irmaos
obreiros, trabalhou nas ses de Inglaterra, de Franca, e de Alemanha: ahi subiu ao grau de mestre, mas
a sua alma não e aquecida a luz do amor de patria; nem, que o fosse, e para elle patria esta terra
portugueza. Por engenho e maos de portuguezes devia ser concebido e executado ate seu final remate
o monumento da gloria dos nossos; e eis-ahi que elle chamou do longes terras officiaes estranhos, e os
naturaes la foram mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimaraes. Sei que não seriam
nem elles nem eu quem puzesse esse remate; mas nos deixariamos successores, que conservassem
puras as tradicoes da arte. Perder-se-ha tudo; e, porventura, tempo vira em que, nesta obra dos
seculos, não haja maos vigorosas que prosigam os lavores que maos cansadas não poderam levar a
cabo. Entao o livro de pedra, o meu cantico de victoria, ficara truncado. Mas Affonso Domingues tem
uma pensao d’elrei!..”
Em uma das casas que ficavam mais proximas, e de que fizemos mencao no principio deste capitulo,
ergueu-se a adufa de uma janella no momento em que o cego terminava estas palavras, e uma velha,
em cuja cabeca alvejava uma toalha mui branca, gritou da janella:
“Mestre Affonso, quereis recolher-vos? Esta prompta a cea, e comeca a cahir a orvalhada, que a tarde
vae nevoenta.”
“Vamos la, vamos la, Anna Margarida; vinde guiar-me.”
E Anna Margarida, ama de mestre Affonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cincta, e o
fuso espetado entre o linho e o ourelo que o apertava. Chegando ao pe do velho, tocou-lhe com o
braco, em que elle se firmou, tornando a erguer-se.
“Boas tardes, padre prior:—disse a ama, fazendo sua mesura, seguida de um lamber de dedos, e de
dous puxoes nas barbas da estriga quasi fiada.
“Va na graca do Senhor, filha:—respondeu Fr. Lourenco, e accresccntou dirigindo-se ao cego:
“Meu irmao, Deus acceita so ao homem, em desconto da grande divida, a dor calada e soffrida.
Resignae-vos na sua divina vontade.”
“Na delle estou eu resignado ha muito: na dos homens e que nunca me resignarei.”
E Anna Margarida, que tinha a cea ainda ao lume, foi puxando o cego para a porta de casa.
“Ai, Affonso Domingues, Affonso Domingues! vae-se-te apos a vista o siso. Aborrida cousa e a
velhice. não vos parece, Fr. Joanne?”
Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que suppunha estaria atraz delle; mas Fr. Joanne
tinha desapparecido d’alli manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Fr. Lourenco viu-o em
pe sobre uma pedra a alguma distancia.
O prior ia a perguntar-lhe o que fazia alli, quando o reverendo procurador saltou a correr, bradando:
“Ganhastes, padre prior; ganhastes!… Eis elrei que chega.”
E, com effeito, Fr. Lourenco, volvendo os olhos para o cimo de um outeiro, viu uma lustrosa
companhia de cavalleiros, que com grande acodamento descia para o vallc do mosteiro.

Carta de um Defunto Rico
Lima Barreto

“Meus caros amigos e parentes. Cá estou no carneiro n.º 7 .., da 3.ª quadra, à direita, como vocês devem saber, porque me puseram nele. Este Cemitério de São João Batista da Lagoa não é dos piores. Para os vivos, é grave e solene, com o seu severo fundo de escuro e padrasto granítico. A escassa verdura verde-negra das montanhas de roda não diminuiu em nada a imponência da antiguidade da rocha dominante nelas. Há certa grandeza melancólica nisto tudo; mora neste pequeno vale uma tristeza teimosa que nem o sol glorioso espanca… Tenho, apesar do que se possa supor em contrário, uma grande satisfação; não estou mais preso ao meu corpo. Ele está no aludido buraco, unicamente a fim de que vocês tenham um marco, um sinal palpável para as suas recordações; mas anda em toda a parte.
Consegui afinal, como desejava o poeta, elevar-me bem longe dos miasmas mórbidos, purificar-me no ar superior e bebo, como um puro e divino licor, o fogo claro que enche os límpidos espaços.
Não tenho as dificultosas tarefas que, por aí, pela superfície da terra, atazanam a inteligência de tanta gente.
Não me preocupa, por exemplo, saber se devo ir receber o poderoso imperador do Beluchistã com ou sem colarinho; não consulto autoridades constitucionais para autorizar minha mulher a oferecer ou não lugares do seu automóvel a príncipes herdeiros — coisa, aliás, que é sempre agradável às senhoras de uma democracia; não sou obrigado, para obter um título nobiliárquico, de uma problemática monarquia, a andar pelos adelos, catando suspeitas bugigangas e pedir a literatos das ante-salas palacianas, que as proclamem raridades de beleza, a fim de encherem salões de casas de bailes e emocionarem os ingênuos com recordações de um passado que não devia ser avivado.
Afirmando isto, tenho que dizer as razões. Em primeiro lugar, tais bugigangas não têm, por si, em geral, beleza alguma; e, se a tiveram era emprestada pelas almas dos que se serviram delas. Semelhante beleza só pode ser sentida pelos descendentes dos seus primitivos donos.
Demais, elas perdem todo o interesse, todo o seu valor, tudo o que nelas possa haver de emocional, desde que percam a sua utilidade e desde que sejam retiradas dos seus lugares próprios. Há senhoras belas, no seu interior, com os seus móveis e as costuras; mas que não o são na rua, nas salas de baile e de teatro. O homem e as suas criações precisam, para refulgir, do seu ambiente próprio, penetrado, saturado das dores, dos anseios, das alegrias de sua alma; é com as emanações de sua vitalidade, é com as vibrações misteriosas de sua existência que as coisas se enchem de beleza.
É o sumo de sua vida que empresta beleza às coisas mortais; é a alma do personagem que faz a grandeza do drama, não são os versos, as metáforas, a linguagem em si, etc., etc. Estando ela ausente, por incapacidade do autor, o drama não vale nada.
Por isso, sinto-me bem contente de não ser obrigado a caçar, nos belchiores e cafundós domésticos, bugigangas, para agradar futuros e problemáticos imperantes, porque teria que dar a elas alma, tentativa em projeto que, além de inatingível, é supremamente sacrílego.

De resto, para ser completa essa reconstrução do passado ou essa visão dele, não se podia prescindir de certos utensílios de uso secreto e discreto, nem tampouco esquecer determinados instrumentos de tortura e suplício, empregados pelas autoridades e grão-senhores no castigo dos seus escravos.
Há, no passado, muitas coisas que devem ser desprezadas e inteiramente eliminadas, com o correr do tempo, para a felicidade da espécie, a exemplo do que a digestão faz, para a do indivíduo, com certas substâncias dos alimentos que ingerimos…
Mas… estou na cova e não devo relembrar aos viventes coisas dolorosas.
Os mortos não perseguem ninguém; e só podem gozar da beatitude da superexistência aqueles que se purificam pelo arrependimento e destroem na sua alma todo o ódio, todo o despeito, todo o rancor.
Os que não conseguem isso — ai deles!
Alonguei-me nessas considerações intempestivas, quando a minha tenção era outra.
O meu propósito era dizer a vocês que o enterro esteve lindo. Eu posso dizer isto sem vaidade, porque o prazer dele, da sua magnificência, do seu luxo, não é propriamente meu, mas de vocês; e não há mal algum que um vivente tenha um naco de vaidade, mesmo quando é presidente de alguma coisa ou imortal da Academia de Letras.
Enterro e demais cerimônias fúnebres não interessam ao defunto; elas são feitas por vivos para vivos.
É uma tolice de certos senhores disporem nos seus testamentos como devem ser enterrados. Cada um enterra seu pai como pode – é uma sentença popular, cujo ensinamento deve ser tomado no sentido mais amplo possível, dando aos sobreviventes a responsabilidade total do enterro dos seus parentes e amigos.
tanto na forma como no fundo.
O meu, feito por vocês, foi de truz. O carro estava soberbamente agaloado; os cavalos bem paramentados e empenachados; as riquíssimas coroas, além de ricas, eram lindas. Do Haddock Lobo, daquele casarão que ganhei com auxílio das ordens terceiras, das leis, do câmbio e outras fatalidades econômicas e sociais que fazem pobres a maior parte dos sujeitos e a mim me fizeram rico; da porta dele até o portão de São João Batista, o meu enterro foi um deslumbramento. Não havia, na rua, quem não parasse para contemplá-lo, descobrindo-se ritualmente; não havia quem não perguntasse quem ia ali.
Triste destino o meu, esse de, nos instantes do meu enterramento, toda uma população de uma vasta cidade querer saber o meu nome e dali a minutos, com a última pá de terra deitada na minha sepultura, vir a ser esquecido, até pelos meus próprios parentes.
Faço esta reflexão somente por fazer, porque, desde muito, havia encontrado, no fundo das coisas humanas, um vazio absoluto.
Essa convicção me veio com as meditações seguidas que me foram provocadas pelo fato de meu filho Carlos, com quem gastei uma fortuna em mestres, a quem formei, a quem coloquei altamente, não saber nada desta vida, até menos do que eu.
Adivinhei isto e fiquei a matutar como é que ele gozava de tanta consideração fácil e eu apenas merecia uma contrariedade? Eu, que…
Carlos, meu filho, se leres isto, dá o teu ordenado àquele pobre rapaz que te fez as sabatinas por “tuta-e-meia”. e contenta-te, com o que herdaste do teu pai e com o que tem tua mulher! Se não fizeres… ai de ti!
3
Nem o Carlos nem vocês outros, espero, encontrarão nesta última observação matéria para ter queixa de mim. Eu não tenho mais amizade, nem inimizade.
Os vivos me merecem unicamente piedade; e o que me deu esta situação deliciosa em que estou, foi ter sido, às vezes, profundamente bom. Atualmente, sou sempre…
Não seria, portanto, agora que, perto da terra, estou, entretanto, longe dela, que havia de fazer recriminações a meu filho ou tentar desmoralizá-lo. Minha missão, quando me consentem, é fazer bem e aconselhar o arrependimento.
Agradeço a vocês o cuidado que tiveram com o meu enterro; mas, seja-me permitido, caros parentes e amigos, dizer a vocês uma coisa. Tudo estava lindo e rico; mas um cuidado vocês não tiveram. Porque vocês não forneceram librés novas aos cocheiros das caleças, sobretudo, ao do coche, que estava vestido de tal maneira andrajosa que causava dó?
Se vocês tiverem que fazer outro enterro, não se esqueçam de vestir bem os pobres cocheiros, com o que o defunto, caso seja como eu, ficará muito satisfeito. O brilho do cortejo será maior e vocês terão prestado uma obra de caridade.
Era o que eu tinha a dizer a vocês. Não me despeço, pelo simples motivo de que estou sempre junto de vocês. É tudo isto do José Boaventura da Silva.
N. B. — Residência, segundo a Santa Casa: Cemitério de São João Batista da Lagoa; e, segundo a sabedoria universal, em toda a parte. — J. B. S.”
Posso garantir que trasladei esta carta para aqui, sem omissão de uma vírgula.

A.B C, Rio, 22-l-l92l.

Fim

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC/SP
ESPECIALIZAÇÃO EM LITERATUTRA
Módulo lll
Oswald e a prática política

Oswald e Tarsila a bordo do Massília
Escritores famosos, de várias nacionalidades, devotaram grande simpatia aos movimentos libertários. O espírito de ruptura desses movimentos atraiu sobretudo os artistas envolvidos com propostas de renovação estética radical. A primeira vista, parece impertinente apresentar, em um número especial dedicado ao Anarquismo, um texto sobre Oswald de Andrade. Mas para este escritor, os pensadores anarquistas revelaram a possibilidade de aliar a aspiração por um ideal mais humano com sua pesquisa pela liberdade de formas e estilo. Além disso, Oswald se afinou com as manifestações libertarias, da mesma forma que as vanguardas procuraram seguir à risca a lição de Proudhon, fazendo da arte o símbolo do dinamismo, do pode recriador de cada sociedade. Ao publicar em 1925 Pau Brasil, desconcertou os modernistas mais atuantes com o aproveitamento de materiais poéticos inusitados e uma proposta radical de depuramento da linguagem, que pôs abaixo os padrões vigentes de poesia; no âmbito da prosa, com Miramar e Serafim, desarticulou modernamente a estrutura da narrativa; O rei da vela inaugurou no Brasil a dramaturgia de vanguarda. Mas ao contribuir para destruir a velha ordem estética, retratou o mundo provinciano e burguês da sua época. A camada oprimida e pobre da sociedade – operários, camponeses e marginais – teve a sua chance apenas em Marco Zero. E mesmo assim, apareceu como cenário para o romancista historiar a decadência da burguesia paulista.
Já se explorou bastante o dandismo da personalidade oswaldiana. Todavia, permanecem desconhecidas outras facetas dessa personalidade plural e instável. No primeiro volume das Memórias 1. Oswald mencionou suas ligações com intelectuais anarquistas e confessou sua admiração pelos teóricos libertários ou por manifestações ligadas a este movimento. Freqüentou a mesma roda de intelectuais em torno do poeta Ricardo Gonçalves e do líder anarquista italiano Oreste Ristori. Foi também muito amigo de outro escritor libertário, Domingos Ribeiro Filho, com quem tinha laços de parentesco. Esses companheiros de mocidade foram responsáveis pelas sugestões das primeiras leituras que começaram a modificar a sua visão burguesa e bem comportada do mundo. Embora nunca tenha sido um militante anarquista, as influências do ideário libertário espalharam no seu comportamento e mais intensamente na sua obra, depois de assimiladas outras experiências e de sua participação ostensiva na luta política, na década de 30.
A insistência de Oswald de Andrade, em elaborar projetos que contribuíssem para a transformação geral da sociedade, passou a ser uma constante na sua obra, desde do tempos da Antrofagia. Embora, as reflexões sobre política datem da fase de ligação do escritor com o PC, de 1931 a 1945. E, curiosamente, nestes trabalhos afloram anarquicamente as marcas do ideário libertário, desviando o seu Autor de posturas partidárias ortodoxas. Os projetos de Oswald tentavam, do mesmo modo que as doutrinas anarquistas, esboçar um sistema de filosofia social cujas idéias pudessem contribuir para promover mudanças na estrutura da sociedade. A maior parte dos textos políticos foi marcada pelo caráter didático, à semelhança de roteiros para conferências ou aulas destinadas a operários; outra parte funcionou como programa, orientando a discussão interna entre os companheiros. Saindo do âmbito restrito das tarefas internas para o plano internacional, pensou sobre o movimento político da atualidade. Denunciou o desenvolvimento do fascismo no Brasil, mostrando o perigo da disseminação desta doutrina autoritária. Oswald percebeu imediatamente a ameaça que representavam as primeiras manifestações de rua dos Integralistas (1933), no Brasil, alertando os operários: ” … já começam a desfilar pelas ruas as milícias dos filhos ricos (…) debaixo da proteção da polícia burguesa e da justiça de classe”.
O vosso sindicato, escrito em 1933, contém informações generalizadas incomuns para um escritor burguês, e, antes, próspero cafeicultor. Certamente foi o texto que serviu de base à conferencia pronunciada no “Sindicato dos Padeiros, Confeitarias e Anexos”. Baseando-se nas teorias de Saint Simon, fundamentou a analise sobre o desarranjo financeiro internacional e trabalhando com a velha idéia de que “economia e política são uma simples casca da outra”, analisou a causa do descalabro econômico e a dificuldade de se encontrar caminhos pacificas de organização social, em virtude da instabilidade política. Fundamentado em pesquisa minuciosa, reconstruiu a história dos sindicatos através dos séculos. Sindicato, alias era um assunto que estava em pauta na vida nacional, desde março de 1931 com a lei de sindicalizarão, que regulamentou a existência das organizações operárias e patronais. A pesquisa remontou à velha Roma, a fim de datar o surgimento de uma organização pacifica e benemerente de trabalhadores sob a forma de “colégio”. Além de ser um estudo sistematizado, de caráter informativo para operários, entremeiou sua posição pessoal com a narração de fatos, enumeração de dados estatísticos, etc. Não se trata portanto de um texto frio, cuja preocupação tenha sido a de meramente alinhar dados importantes ligados ao tema. Aproveitou-se da proximidade com o publico, que o tom do discurso de uma palestra podia oferecer, para se tornar mais ‘intimo dos seus ouvintes e com isso aconselhar e ensinar. Enfim, se posicionou como um professor experimentado, severo e cordial ao mesmo tempo, apresentando idéias de maneira simples e clara.
Alertou o operariado, menos politizado, para a força revolucionaria dos sindicatos pelo fato de serem agremiações de “despojados”. A propósito lembrou, que, enquanto as associações de benemerência foram formadas por escravos, os poderosos não se sentiram incomodados; a ameaça ao Capitalismo surgiu mais tarde com as associações operárias na era das grandes indústrias. Oswald pós o dedo na ferida do mundo operário: a arma de opressão dos capitalistas – o Estado – foi sempre manipulada contra a classe trabalhadora. Considerava o Estado burguês “o comitê administrativo e policial das classes ricas”. De todo modo, não descartou a relação intima das reivindicações econômicas com as conquistas políticas: as greves passaram a ter outro significado, além daquele “sentido corporativo e local de protesto econômico”.
Traçou um panorama histórico dos antagonismos sociais no mundo de 1917 a 1933. Nesta revisão, considerou, do ponto de vista do desenvolvimento das lutas de classe, o Renascimento como um período de novo alento para a historia da humanidade sob vários aspectos: a pregação do nacionalismo; a criação do mercado mundial e dos manufaturados; o espírito de aventura e particularmente a ênfase no papel do indivíduo na sociedade.
Oswald de Andrade estava presenciando uma série de reformas sociais, surgidas a partir da criação do Ministério do Trabalho, em novembro de 1930. Mas as medidas necessárias foram palidamente adotadas pela Revolução e estavam longe de regulamentar a lei de férias, os salários, a situação das mulheres e crianças. Reivindicações trabalhistas estas que foram efetivadas por iniciativa da Assembléia Constituinte, eleita em 3 de maio de 1933. Esta assembléia com uma organização corporativista, lembrando a estrutura política do fascismo italiano, também apoiada pelos Tenentes, trouxe certa atmosfera de progresso. Vários historiadores admitem que a tentativa de implantação do sistema corporativista, entre outras finalidades, objetivava neutralizar a influência comunista no movimento operário. Oswald não poupou critica iniciativas populistas do governo Vargas planejadas com o objetivo de neutralizar e minimizar a atuação revolucionaria dos sindicatos. Nesse sentido, conclamou os operários a desmascararem esses “lances demagógicos”, as “concessões de emergência”, e os “resultados catastróficos das suas leis sociais”. A situação de legalidade, proporcionada por aquela Assembléia, segundo Oswald, foi apenas aparente, uma vez que a “comédia parlamentar da Constituinte” permitiu a existência de centenas de trabalhadores presos sem processos. Como solução sugeriu aos operários: “organizar-se revolucionariamente e criar fracções revolucionarias marxistas nos organismos oficiais ou espontâneos”. é interessante observar como Oswald de Andrade oscilou em suas convicções: entre adotar a orientação marxista, no que diz respeito a necessidade de se organizar as agremiações operárias, preferiu sugerir também as reuniões pautadas pela espontaneidade e de tradição anarquista. Outra proposta, inspirada nesta tradição foi a idéia de entrosar o trabalhador do campo na mesma frente, dando a entender que não devia ser meramente o interesse especifico de cada profissão o fator de união: o ponto comum seria a condição de “despojado”. Para incentivar o trabalho de organização das bases operárias, recordou os momentos de bravura do proletariado paulista em face da burguesia: 1906 – a greve paulista; 1917 a greve geral; 1929 – os gráficos; 1930 -a Light; 1932 – os ferroviários. E com base nessas vitórias operárias, insistiu na necessidade de um balanço objetivo das conquistas reais e da força desses movimentos. Sem esquecer de assinalar que a grande diferença entre o proletariado em ascensão e a burguesia era a “fraqueza de se criticar e o poder de melhorar sobre a experiência dos próprios erros”, aconselhou, em tom professoral, aos operários: “libertar de todas as ideologias burguesas”, “fortalecer a teoria de classe” e por fim conscientizar-se de que a “emancipação do proletariado é tarefa do proletariado”. Estas recomendações divergiam intensamente da proposta libertaria, que não admitia uma pratica classista, na luta por um mundo diferente.
A conferência captou bem a atmosfera de confusão ideológica tanto do Autor como do momento nacional. Com as reviravoltas políticas a nível internacional, repercutiu no Brasil o estado de expectativa e ansiedade em relação ao quadro de opções políticas: “As palavras ‘socialismo’, ‘esquerda’, revolucionário’ abriram as suas entradas secretas, seus alçapões e labirintos aos refugiados dos terremotos capitalistas” … Diante desse panorama, Oswald mostrou-se entusiasmado com o exemplo da realidade soviética e a atuação dos seus sindicatos, responsáveis pelas sugestões de aperfeiçoamento do regime. Confrontou esta realidade, no seu entender, ideal com a situação de miséria e exploração do mundo capitalista. Ao lado desta visão entusiasta do modelo soviético na época, realizou previsões atualíssima e certeiras, que se confirmaram no mundo ocidental, décadas depois: “0 dia de amanhã será com certeza pior do que o de hoje. A racionalização capitalista continuará a despedir, a diminuir os salários, a tapear os seguros, a perseguir e entregar à polícia os trabalhadores conscientes”.
Dois pontos podem ser destacados como novidade no pensamento critico dos intelectuais modernistas. Antes de mais nada, a escolha política feita por Oswald foi singular, comparando-se com a dos seus companheiros. Oswald tentou contribuir concretamente, como escritor, através de uma produção especifica e orientada, mesmo considerando-se a ingenuidade e pobreza das argumentações teóricas. Voltados para a educação e o crescimento espiritual do trabalhador, seus textos são ricos de sugestões com a intenção de auxiliar o operário na reflexão sobre seus direitos políticos e sobre seu papel na luta pela transformação da sociedade. Entusiasta, superdimensionado foi o papel traçado, pelo escritor, para a ação do proletariado no futuro da humanidade. E nesse percurso, não deixou de anotar a dívida dos movimentos operários para com o “mundo sonhado pelos utopistas e anarquistas”. Outro elemento novo, na reflexão dos modernistas na década de 30, foi a crítica explícita à Revolução Constitucionalista de 32. Elogiou a atitude dos operários por não se ter deixado levar pela “histeria pequeno-burguesa das paulistas. .. ” e por não ” (… ) formar batalhões patrióticos sob a direção dos sicários da ordem social e dos tubarões da ordem feudal”
Em ‘O Lar do operário” (do início da década de 40) traçou a síntese de um programa social, espécie de plataforma política. Ao esboçar sua visão crítica da sociedade, apresentou uma análise pessimista: “vagamos em pleno caos”. No radiagnóstico do mundo capitalista, seus argumentos endossaram afirmações simplórias do tipo: ‘O Capitalismo é gravemente acusado de ter feito aflorar todos os ódios subterrâneos de que a humanidade primitiva ela capaz”; ao lado de sugestões como: ” É portanto nos desregramentos da economia que devemos procurar os males que tanto desasossegam o homem moderno”; e conclusões que consideravam a redução ao símbolo monetário de toda a gana das ambições humanas a origem do “profundo desgosto que inquieta todo mundo”. Análises e conclusões entremeados de motivos da pregação libertária: “É o sentimento individual da competição que rompe a tessitura da coletividade. Necessário (…) reeducar um ser viciado na adulação e no reclame como é o homem atual”.
Fazendo um panorama dos movimentos propulsores de transformações sociais importantes, observou que depois da revolução francesa, ao contrário do que se esperava, a exploração do homem pelo homem tornou-se mais organizada. Decepcionou-se com o surto civilizador do século XIX, no tocante às conquistas sociais. A obra dos enciclopedistas, no seu modo de ver, refletiu o protesto sentimental contra as velhas pressões e não passou de uma proposta primária de planos liberais. Considerou mais alentador o surgimento do “socialismo utópico”, sobretudo quando este discutiu questões concretas do ponto de vista social e econômico.
Na elaboração dos planos sociais, Oswald achava importante observarem se as coordenadas histórico-geográficas de nosso país, evitando-se as costumeiras transplantações de sistemas sem as adaptações necessárias. Apesar de ter se manifestado contra a política ditatorial fascista do Estado Novo, admitiu que “de 1937 para cá rumou o país para os moldes necessários às suas íntimas transformações. O Estado Novo colocou o Brasil na marcha da historia contemporânea”. A leitura dos textos oswaldianos da década de 30, leva-nos a perceber a consciência que o escritora tinha do grau destas mudanças e do tipo de modernização, em processo, bastante precário, não modificando substancialmente a estrutura econômico-social preexistente. De qualquer forma Oswald de Andrade, como vimos, reconheceu as novidades colocadas em cena e que foram bem assinaladas pelos estudiosos do período 2: advento de uma sociedade urbano-industrial, fim do predomínio da oligarquia agro-exportadora e dos particularismos de ordem local, predomínio da ordem pública.
Mesmo não demonstrando em nenhum momento simpatia pelos sistemas totalitários, aceitava, para determinados períodos de reconstrução da sociedade o poderio superior do Estado, com o objetivo de sanear a vida política, econômica e financeira de uma nação; recomendava sobretudo a ordem e o equilíbrio como terapias imprescindíveis.
Quando sugeriu a intromissão do Estado na política reestruturadora, não pensou evidentemente no Estado burguês – “inimigo dos operários”. O programa de reconstrução social, claramente exposto em “0 Lar do operário “afastou-se da espontaneidade anarquista na luta pela reconstrução social e propôs um Estado tutelar, provisório. Todavia, este sistema devia admitir a construção pelo próprio indivíduo “de seu clima de liberdade” conquistado pelo trabalho pessoal de cada um. A responsabilidade do Estado consistia na tutela dos níveis baixos de vida e na responsabilidade de sua constante evolução.
Introduziu um conceito especial de propriedade: lar, “a célula dignificante de todo homem e o ponto de apoio de toda a estrutura coletiva”. Na impossibilidade de, nesta primeira fase de seu projeto de reestruturação da sociedade, abolir se completamente as classes, aceitou a existência de camadas: a primeira colocada sob a tutela direta do Estado, em seguida a do operário, dignificado pela “conquista de um lar”. Não explicou como se realizaria a convivência com as outras camadas. Da mesma forma, fazia conjecturas sobre o destino do Estado, depois de restabelecido a “saúde social”: “pura função policial, ladeando uma comunhão de homens livres” ou sua completa extinção, Durante o período de transição, planejou como tarefa a ser desempenhada pelo Estado a assistência à massa desamparada (“0 lar do Estado”). Com este projeto, Oswald tentou simploriamente resolver a disputa entre a tendência coletivista (propondo O Lar do Estado) e a individualista (O Lar do Operário).
Lançou mão de vários receituários ideológicos, a fim de traçar um programa de reformas sociais mais próximo da realidade. Não teve nenhum pudor em misturar o ideário dos pensadores utópicos e anarquistas às propostas adversárias do Partido. Influenciado pelas idéias anarquistas, concebeu o esquema da divisão das tarefas de acordo com a habilidade e com o esforço pessoal. O trabalho intelectual ou técnico devia ser condicionado apenas pelo “exclusívo valor mental”, sem condicionamentos de classes. Repetidas vezes, Oswald de Andrade manifestou esta opinião: “Haverá sempre uma seleção de elites culturais por especialização vocacional. O acesso à cultura geral tem que ser facilitado e atribuído a todos. Isso sim. Mas os temperamentos e as cabeças divergem”.
É bem verdade que na fase de relacionamento com o Partido Comunista, Oswald perdeu o entusiasmo pelas teorias anarquistas que o animaram desde o seu tempo de estudante de Direito. Os textos da década de 30 refletem esta atmosfera, embora deixem transparecer também idéias opostas aos princípios do Partido ao qual estava ligado. Assim se verificou quando Oswald analisou o papel do Estado na transformação e no desenvolvimento de uma nova sociedade. Não aceitou o Estado burguês repressivo e defensor do sistema capitalista, também não viu com bons olhos a dominação permanente de um Estado totalitário. Além disso, durante este período de ativismo político, colocou em quarentena o vigor das teorias estéticas renovadoras da década de 20 e as reivindicações mais ousadas de caráter geral. Inclusive a proposta anarquista, esboçada na Antropofagia, de reivindicação da posse contra a propriedade foi suspensa até os anos 40, quando a retomou nos ensaios de filosofia, nas famosas teses universitárias e de modo muito irreverente no volume “A revolução melancólica” do Marco Zero. Na teoria da “economia do ser” desenvolvida ainda no período antropofágico, em contraposição à “economia do haver”, Oswald de Andrade chegou bem perto da tentativa de abolição do dinheiro proposta pelas sociedades libertarias. Pregava a Antropofagia, na esteira do Anarquismo, a imediata distribuição equânime dos bens adquiridos, tomando como base o sistema de serviços prestados e benefícios retribuídos.
Oswald também em questões anarquistas não foi ortodoxo, como não o foi durante suas ligações com o Comunismo. Aliás dogmatismo não passava por seus projetos, estando sempre pronto a rever suas idéias. Em depoimento fragmentado ele se auto-analisava: “Tem apenas a coragem das suas transformações. É um ultra sensível ( …) Colonial com Théatre Bresilien (l9l6), anarco-cristão com a desgraça e a solução sentimental a que se acolhe o lumpen de que fazia parte como boêmio em (l922), anarco-feudal em Pau brasil e Primeiro Caderno – reflexo da alta vida a que subira com a fortuna herdada extremando-se em anarco-indígena com Serafim e a Antropofagia comunista enfím (… )” 3. A sua trajetória literária dá para ilustrar nossa argumentação, sem precisar recorrer a outros depoimentos. Em 1933, renegou os princípios burgueses no famoso prefácio do Serafim, mas fez também a autocrítica de seu engajamento político, e ao romper com o Partido Comunista ofereceu, nas paginas dos principais jornais do país, um balanço critico contundente da atuação deste Partido no cenário político nacional. Como vínhamos assinalando, são infinitas e bem evidentes as afinidades entre Oswald e as diferentes teorias anarquistas. Mesmo assim, o escritor não hesitou em tecer criticas ao desempenho de certas lideranças no nosso país. Embora longa a citação, é interessante ouvi-lo diretamente sobre o problema: “No Brasil, o Anarquismo ou se despe nos braços de sonhadores boçais ou veste francamente a roupa “apolitíca” da polícia política. Tem assim produzido as maiores traíções à classe dos trabalhadores, sempre ligado a generais da milícia ou do trotskismo. Como no Brasil tudo chega atrasado, isso se explica. A hora do Anarquismo já passou. Hoje só se atinge o bem individual através do bem coletivo. Foi no século passado no apogeu do Capitalismo individualista que o Anarquismo prosperou. Veja-se a onda emocional de Níetzche e Dostoiewski, a politica de Bakunin e Vera Zassoutitch, a filosofia de Schopenhauer a Bergson, a estética do Impressionismo ao Pontilhismo e ao Fauvismo”4.
No que diz respeito à assistência direta ao trabalhador, dentro da sua especialidade, Oswald de Andrade esteve preocupado com a educação e a informação no plano da cultura em geral. Como os anarquistas, acreditava que a emancipação intelectual do trabalhador era um passo para a caminhada com destino à revolução. Programou edições voltadas para o operariado, com o enfoque de assuntos, que além de ser de interesse do trabalhador, despertassem sua curiosidade e o desejo de ampliar seus conhecimentos. O projeto da “Pequena Enciclopédia Proletária”, por exemplo, previa a edição de 50 volumes de 100 a 200 páginas, englobando conhecimentos gerais, com volumes voltados especificamente para a literatura, artes plásticas, música, cinema, TV, informações sobre fatos cotidianos, biografias e aspectos particulares de política operária, etc. Enfim, uma mini-biblioteca, cujos temas estavam selecionados por volumes, e que certamente não se tornou realidade. Oswald de Andrade voltaria à política depois de seu desligamento do Partido Comunista. No final da década de 40, candidatou-se a Deputado Federal pelo Partido Republicano Trabalhista. A sua plataforma eleitoral estava sintetizada no lema: Pio, Teto. Roupa, Saúde, Instrução e Liberdade. Trazia também a propaganda do seu percurso de escritor, jornalista e polemista famoso com depoimentos de vários intelectuais dos mais variados credos ideológicos: de Jorge Amado e Astrogildo Pereira a Gilberto Freyre, Tristão de Athayde e Cassiano Ricardo. Esse candidato da “mulher trabalhista” e do “trabalhador intelectual” não conseguiu eleger-se.
REFERÊNCIAS:
1. Oswald de Andrade. Um homem sem profissão. Rio de Janeiro, Cív. Brasileira, 1974.
2. Eli Diniz. O Estado Novo. Estrutura de poder e Relações de Classes. ln: Boris Fausto (org.) O Brasil Republicano. São Paulo, Difel, 1981. t. 3, v. 3, p. 79-120.
3. Fragmento de manuscrito, sem titulo.. Acervo Oswald de Andrade (Coleção Adelaide Guerrini de Andrade) Centro de Documentação IEL-UNICAMP.
4. Fragmento de manuscrito, sem titulo. Acervo Oswald de Andrade (Coleção Rudá e Marília de Andrade) .

DO ÓRFICO E MAIS COGITAÇÕES
O conjunto de textos, boa parte inédita, apresentado neste volume, é mais abrangente que a coletânea Ponta de Lança, organizada pelo escritor em 1945, espelhando com precisão a sua atividade crítica nos anos 40. Aqui, a faixa temática e cronológica alarga-se, trazendo à tona também uma boa quantidade de trabalhos daquela época sobre assuntos variados.
A incansável birra de Oswald em relação à artificialidade da retórica, não arrefeceu a sua paixão pela oratória, onde se exercitava com muita eloqüência. Portanto, não é de estranhar que neste livro predominem as conferências ou palestras feitas para o grande público, montadas numa linguagem simples, em tom didático, às vezes sem muito aprofundamento, mas cheia de humor. Apesar do aspecto dispersivo no campo dos conceitos e exemplos emitidos, permanecem nos textos escolhidos o brilhantismo das opiniões e o gosto pelo polêmico.
As diferentes incursões de Oswald como político, como agitador cultural, como crítico de arte e como literato revelam visão de mundo particular, originalidade de pontos de vista e compromisso com o seu tempo. Na montagem desta antologia, o critério não foi rígido. Procurei exemplos na riquíssima atuação oswaldiana, na certeza de que muitos dos textos dispersos ou inéditos interessassem ao leitor comum e ao estudioso do Modernismo ou revelassem mais uma faceta
de seu lado intelectual. Muita coisa não foi considerada propositalmente, sobretudo alguns estudos de cunho político-partidário, concebidos durante a fase de militância, por serem enfadonhos e completamente desinteressantes. Hoje sobrevivem exclusivamente como curiosidade e do meu modo de ver, mesmo em se tratando de um volume da obra completa, não valeria a pena publicar qualquer coisa somente pelo seu ineditismo.
Dispus cronologicamente o material, considerando o assunto, em quatro grandes eixos: artes, literatura, filosofia e projetos. No âmbito das artes, recuperei o citadíssmo e muito pouco lido “Em Prol de uma Pintura Nacional”, de 1915, em que Oswald questionou a obcessão dos nossos artistas com a paisagem estrangeira. “Elogio da Pintura Infeliz” é um passeio através de séculos de pintura pinçando as respostas dos pintores às mudanças do mundo enfatizando as diferentes propostas, na maioria das vezes interpretadas como marcos precursores e até transformadores do cenário plástico ocidental. E numa postura adequada ao momento político propôs o alinhamento das artes plásticas no projeto de renovação do mundo, em pauta na ocasião. Na mesma linha, “O Burguês Infeliz Criador de Pintura” comentou o isolamento social do artista para manter sua independência, na medida em que considerou a história da pintura do Ocidente intimamente ligada ao desenvolvimento da pequena burguesia.
No eixo literário visualizam-se algumas áreas de preferência: poesia, Modernismo e a produção do escritor. Sobre poesia, especificamente, abordou o assunto na saudação a Pablo Neruda, em visita ao Brasil. Era 1945, Oswald permanecia ligado ao Partido Comunista, mas andava desapontado com a politicagem. Lembrou a natureza da poesia ao longo dos tempos – “instrumento de revolta, de oposição e de queixa”. Segundo ele idéia semelhante à definição tradicional de comunismo. O discurso foi curto, cheio de afirmações equivocadas, ingenuamente utópicas, marcadas pela emoção. Ainda acreditava que o poeta, aliado ao trabalhador, deveria ser o guia da humanidade. Nessa época sustentava posições dogmáticas – “A cultura só tem um destino: unificar-se como expressão do homem que trabalha” – mais tarde revistas, assim que procedeu seu desligamento da militância partidária.
“Novas Dimensões da Poesia” possivelmente foi uma palestra proferida dentro de um ciclo de programações do Clube de Poesia. Oswald rastreou a evolução da lírica e as mudanças pelas quais passou; insistiu na defesa da poesia moderna, depois de uma rápida retrospectiva histórica através de pronunciamentos de grandes poetas críticos: Eliot, Mallarmé, Baudelaire, etc. E deu um aviso aos novos poetas: “O retorno à forma não extingue os fogaréus do acaso histórico que vivemos”. Não via motivos para se descartar as conquistas da poesia do Modernismo, que a chamada geração de 45 insistia em desmerecer. Foi uma posição isolada, considerada conservadora e ultrapassada por Péricles Eugenio da Silva Ramos, Geraldo Vidigal, Domingos Carvalho da Silva, dentre outros, que propunham a recuperação da seriedade temática e do esmero formal no artesanato poético.
No agradecimento pela homenagem recebida ao completar 60 anos, reconstruiu as peculiaridades estéticas dos poetas de 22: “Nosso problema central foi a tensão entre o coloquial e a voragem. Entre o prosaico e o lírico, o polido e o arlequinal. Éramos a tradução da cidade. E por isso, como ela, fazíamos a escalada e o recorde, limpando as janelas da vida.” Na realidade Oswald também sutilmente mandava um recado aos companheiros de Modernismo que não embarcaram na sua fúria renovadora, no tempo do Pau Brasil. Sérgio Milliet, na saudação ao homenageado, fez o mea culpa em nome dos colegas por não ter dado o real valor ao trabalho de Oswald: “Confessemos que era difícil ao letrado brasileiro, que se abeberava na sub-literatura do neo-parnasianismo, entender essa poesia, toda de extremo requinte, de muito pudor e emoção, tudo escondido sob a caricatura da piada, porque não era propriamente a piada que você usava, mas a caricatura dela.”
Alguns textos importantes, anteriores à Semana, ajudam a mapear a evolução do pensamento crítico oswaldiano. O artigo sobre Anita Malfatti, o discurso do Trianon e “O Meu Poeta Futurista”, que já entrou para a história pelo fato de ter lançado Mário de Andrade poeta, publicados por Mário da Silva Brito, na sua sempre atual História do Modernismo merecem ser incluídos numa obra completa. Entre nós, as reflexões mais interessantes sobre o movimento da vanguarda italiana aparecem tardiamente em 1921 e 1922, embora a grande imprensa, já em 1909, comentasse o teor radical de suas propostas e em 1911 tenha surgido na Bahia uma edição com a tradução dos manifestos futuristas. O artigo “O futurismo tem tendências clássicas” mostrou em que medida essa renovação européia servia de modelo aos jovens escritores paulistas.
O restante dos artigos fazem a história e ressaltam a importância do movimento de renovação estética do qual foi líder. “Modernismo” e “Notas para o Meu Diário Confessional” contam o surgimento e a consolidação das idéias de 22. Ao mesmo tempo, sem parcialismos, definem o papel desempenhado por cada uma das figuras modernistas mais representativas, como foi o caso de Graça Aranha e nomeiam os financiadores da festa: “Num paradoxo muito peculiar a São Paulo, quem prestigiou a Semana revolucionária foi um grupo conservador. Dele faziam parte Samuel Ribeiro e René Thiolier… Como se vê, todos os movimentos se processam da mesma maneira, confusos, heteróclitos, desiguais. O que importa é o impulso e a meta.” Curiosamente Oswald constatou a existência de uma unidade política no movimento mesmo após o surgimento da devastadora Antropofagia: “Só com o vendaval político-econômico de 30 se definiram posições ideológicas.” Esqueceu a grande dissidência havida na segunda fase da Revista de Antropofagia, justamente por divergências na condução política do movimento. A “Carta para Afrânio Zuccoloto” e “Informe sobre o Modernismo” traçam os princípios que nortearam a nossa vanguarda. Oswald, familiarizado com a irreverência peculiar dos novos, sente-se à vontade para advertí-los uma vez que não admitia, sob qualquer pretexto, o desconhecimento da contribuição oferecida pela tradição (onde agora os modernistas estavam incluídos): “Nós fizemos paralelamente às gerações mais avançadas da Europa, todas as tarefas intelectuais que nos competiam.” Reviu o clima cultural do pré-Modernismo e recuperou a participação de seu velho amigo e editor, Monteiro Lobato, na afirmação da nossa modernidade, contribuindo com Jeca Tatu para a inserção de tema e expressão novos. Lamentava apenas que Lobato não tivesse adquirido a técnica e a crítica.
Uma conferência muito pouco conhecida representa as primeiras preocupações com o nacional que, a partir de 24, iria alicerçar o projeto modernista. “Esforço Intelectual do Brasil Contemporâneo”, panoramicamente montada com a intenção de divulgar para estrangeiros o processo de modernização pelo qual o Brasil vinha gradativamente passando, foi lida na Sorbonne, em maio de 1923. Esse texto, ao lado dos Manifestos “Pau Brasil” e Antropófago” bem como do antológico artigo “Em Prol de uma Pintura Nacional”, participaram da construção do ideal estético nacionalista de toda uma geração.
Elegeu algumas figuras representativas da literatura brasileira – Paulo Prado, Inglês de Sousa, Gregório de Mattos, Emílio de Menezes, Menotti del Picchia, Tristão de Athayde, etc. O texto sobre Paulo Prado, semelhante ao que foi publicado no Jornal do Comércio, por ocasião do lançamento do Retrato do Brasil em 1928, elogiou o estilo do ensaista – o único que gostaria de imitar – e atacou violentamente a tese principal do livro: “a repetição de todas as monstruosidades de julgamento do mundo ocidental sobre a América descoberta.” Alceu Amoroso Lima foi o crítico mais sério e impiedoso de Oswald no período da Antropofagia. As resenhas favoráveis ao autor de Miramar se limitaram a Os Condenados (1922), obra muito apreciada pelo líder católico. Em 1925, Oswald manteve uma polêmica com Tristão justificando não apenas a poesia Pau Brasil, mas todo um arsenal de idéias radicais de renovação inspiradas evidentemente na vanguarda artística européia, retrabalhadas com muita inventividade. A polêmica continuou em 1928 na Revista de Antropofagia com “Esquema ao Tristão.” “Imprecação a Tristão de Athayde” respondeu especificamente às possíveis influências européias detectadas pelo jornalista na Antropofagia de 1929. Na realidade o que preocupava o futuro líder católico era a ameaça da ilogicidade surrealista invadir os palcos tupiniquins, via primitivismo oswaldiano.
Oswald debruçou-se especificamente sobre as peculiaridades do seu estilo e da construção da sua obra. O prefácio Serafim, escrito em 1926, é muito mais apropriado ao espírito da narrativa do que aquele conhecido pelo público em 1933, quando foi obrigado a renegar o passado literário por imposição de compromissos partidários. Oswald explicou os postulados que surgiram para planejar o livro: “endossamos o mau gosto e recuperamos para a época o que os retardatários não tinham compreendido e difamavam.” “Bilhetinho a Paulo Emílio” deveria servir como prefácio às reedições da peça O Homem e o Cavalo. Revidou apaixonada e bem humoradamente o livro recém-publicado em vista das restrições à linguagem debochada feitas por Paulo Emílio. Em “Análise de dois Tipos de Ficcão” a partir dos personagens do romance cíclico “Marco Zero” – Xavier e Veva – Oswald estudou a obra à luz das conquistas da psicologia contemporânea, numa conferência dirigida a uma platéia específica de participantes de um congresso de psiquiatria.
No terreno político-filosófico, os textos cobrem um período que vai de 1930 a 1954. E a abrangência dos problemas tratados é sintoma da inquietação do escritor diante das mais variadas questões do seu país e dos percalços da vida moderna de um modo geral.
Até 1930, o Partido Republicano Paulista reinava como senhor absoluto da política nacional. Oswald esteve naturalmente envolvido ainda que não participasse ativamente da militância. Era ligado a muito de seus líderes: Washington Luís, Carlos de Campos, Júlio Prestes, Menotti del Picchia, etc. Defendeu veemente a atuação desse partido que desenvolveu em São Paulo “obra de liberdade, de progresso, de desenvolvimento maravilhoso, de ordem.”
Intrometeu-se em seara alheia, quando se fez crítico severo do modelo econômico – “País de Sobremesa”: “Não achamos ainda a estrutura nacional”. Arriscou a condenar os rumos do marxismo em confronto com as idéias libertárias de Proudhon, de quem tomou partido em “Velhos e Novos Livros”: “E´ no renascimento das idéias de Proudhon que procuram solução os muitos que se desiludiram da dogmática marxista.” Transformou-se em antropólogo ao elaborar o perfil dos imigrantes bem sucedidos na América (Vespúcio e Matarazzo), “os usurpadores” e para explicar a ameaça da destruição da cultura em países como o nosso em processo de civilização. O escritor revelou-se entusiasmado com o desbravamento do Estado, nas impressões da viagem ao noroeste de São Paulo. Acreditava que o Modernismo tenha sido o responsável pela contribuição do interior, aflorada na literatura a partir das transformações de 30. As ponderações do escritor sobre a importância do desenvolvimento do campo e seu papel na estabilidade social dos povos estão em voga e se revelam cada vez mais necessárias: “Por mais sombrio que seja o momento público que atravessamos – é no trabalho ligado à terra e criando uma consciência, que iremos encontrar as reservas do futuro.”
Oswald esteve sempre preocupado com o desenvolvimento do fascismo no Brasil, ainda quando o integralismo ensaiava seus passos nos primeiros anos da década de 30. “A Lição da Inconfidência” reforçou esse antigo temor, mesmo com o final do conflito do mundial em 1945.
Retomou a Antropofagia de 29, introduzindo na fermentação de seu pensamento filósofos dos mais diversos matizes: Heidegger, Kierkegaard, Marx, Nietzsche, Freud, etc. “O antropófago”, o texto mais longo dessa antologia, é um manuscrito inédito, apresentando varias datas de realização: de 1952 a 1953. Com o sub-título “O antropófago – sua marcha para a técnica, revolução e o progresso”, está estruturado em vários cap¡tulos que deveriam obedecer ao esquema traçado na folha 3 do caderno onde foi escrito: 1. Introdução e hipótese das latitudes; 2. A Gália de César e a Germânia de Tácito frente a Roma (pagã e a Roma convertida); 3 Cogitações sobre a miscigenação medieval; 4. Mundus novus; 5. Construção dialética do mundo moderno; 6. Ótica da humanidade presente; 7. Acertos e rumos. Sustenta a idéia de que o homem tende a esquematizar a sua propria natureza e a criar necessariamente um conflito entre o que ele é (natureza) e o que deseja ser (esquema idealista da própria natureza). Amplia as conclusões sobre a diferença de desenvolvimento técnico e histórico do homem nas diversas regiões do mundo. Na discussão da “teoria das latitudes”, esboçada também no depoimento a Edgard Cavalheiro – “Meu Testamento” -, divide a terra em três zonas, a faixa A, do Trópico de Câncer para o Norte até 60º; a zona B, confinando-se entre os dois Trópicos; a faixa E do Trópico de Capricôrnio, para o sul também 60º. Toma por base clima, uniformidade da produção, fatores que provocam, as diferenças iniciais entre as várias zonas. Por exemplo, a faixa A – Europa, Egito, parte do Canadá, Judéia, Estados Unidos e na Ásia a Mongólia e o Japão – concentra todo o progresso e o avanço tecnológico e a B, por reflexo, realiza em segunda escala o processo de desenvolvimento. A terceira faixa, também chamada de zona equatorial, objeto de atenção demorada do escritor, é caracterizada pela existência de um ócio milenar determinado pelo clima, pela terra e pela vegetação excessiva. Nesta zona o escritor constata o florescimento do regime matriarcal, cujo ideal consiste justamente no ócio.
Traça o itinerário do homem na direção do conhecimento. Retorna à análise sobre o comportamento da classe sacerdotal aproveitando-se, manipulando e deformando o “sentimento órfico” da sociedade e resistindo a todas as revoluções clericais. Isto porque a dimensão religiosa do homem sempre o levou a procurar novos cultos, assim foi no fim da era antiga (com a exaltação dos totemismos e dos numes), com o cristianismo, a promessa da parúsia atraiu milhares de fiéis e apaixonou as vítimas do poderio romano como mostrou em “A marcha das utopias”. Responsabiliza este sentimento órfico do homem pela transferência de cultos: a atitude das massas em torno de certas figuras teocráticas, Hitler, Mussolini, etc.
A partir do século XVIII marca o surgimento de uma nova era no Ocidente, livre dos preconceitos tradicionais da Igreja. Exatamente como Voltaire, que considerava a religião uma loucura ou uma “malandragem”, Oswald acha que o sentimento órfico corresponde à dimensão louca do homem, apontada pelo filósofo francês. Com o marxismo o homem atinge a maioridade, libertado do conceito de Deus, cuja morte Nietzsche anunciou. E no plano econômico destaca a importância da filosofia marxista ao desmascarar a “economia do haver”, expressão que considera mais apropriada para exprimir o sentido de transicão do comércio e da divisão arbitrária da sociedade em classes possuidoras e classes exploradas. Faz restrição ao projeto de Marx e Nietzsche por não ter valorizado o potencial primitivo, recalcado sob o domínio das elites burguesas, responsável pelo levante de massas que marca o início do século XX. Insiste na existência de uma fase de matriarcado vivida pela humanidade e estuda as características econômicas, o direito e a moral dos povos matriarcais: a economia do ser, o direito da guerra e a moral da liberdade.
Em “Construção dialética do mundo contemporâneo” reclama dos críticos um trabalho que coloque o cristianismo nas suas coordenadas históricas, geográficas e racistas. E alerta que a construção do mundo moderno depende do abandono de uma religião condicionada pela geografia ptolomaica, pela mística da escravatura e pelo confinamento.
O outro item, “Ótica panorâmica da humanidade presente”, o sexto do primeiro roteiro, tem os seus principais tópicos ressaltados: “formação do mundo patriarcal; a economia patriarcal; o direito patriarcal; a psicologia patriarcal; a moral patriarcal; a descoberta de um novo mundo; a reação e revolução em termos dialéticos; a marcha técnica (de Aristótels a Friedman); a indústria como invenção do diabo”. No final do caderno depara-se com outro esquema de trabalho, trazendo novo título – “Tratado de Antropofagia”: “histórico do problema; uma sociologia da miscigenação; o problema; as deformações vigentes do patriarcado – a religião (o grande órfico do Ocidente), a economia, a moral, a estética, a política, a lei e o direito; construção dialética do novo mundo matriarcal; o antropófago – sua marcha para o progresso, a técnica a revolucão; conclusão e manifesto”. Na última página um desabafo do poeta: “o homem não tem nada de herói corneliano, continua a trair, a mentir, a roubar, a ter medo, a amar e a matar. Como no primeiro dia da criação”.
O ensaio “O antropófago”, ao que parece, restou inacabado. Grande parte do texto foi ditada pelo escritor a sua mulher Maria Antonieta (Oswald estava convalescente), provavelmente não sofreu o retoque final. Faz parte do ambicioso projeto da fase de pós militância, com o objetivo de fornecer as diretrizes históricas e filosóficas da Antropofagia, e de revelar as fontes de inspiração da sua teoria. Entre o principal documento dos primeiros tempos – o “Manifesto Antropófago” – e os documentos pesquisados medeiam quase 25 anos. Da leitura de ambos, constata-se a permanência das idéias que impulsionaram o movimento de 1928.
“Do órfico e outras cogitações” encerrou melancolicamente este item, oferecendo agora as divagações de um escritor solitário e doente, ocupado somente com as reminiscências do passado a procura de consolo nas emoções, sustos e paixões dos dias infantis – “a idade de ouro de cada um.”
Uma das características mais forte da personalidade de Oswald foi a incessante disposição para planejar, colocar idéias no papel e sonhar com uma eventual realização. Esses planos e projetos iam desde a necessidade de sistematização do uso da propaganda governamental até a proposta de criação de um museu de artes plásticas em São Paulo na década de 30. Oswald não tinha preconceitos em relação a qualquer corrente política que estivesse no governo. O que contava era a disposição do governante em apoiar na prática os seus planos. Neste sentido apelou apara os amigos, para os interventores e para os políticos eleitos, etc. quase sempre sem obter êxito.
No estabelecimento dos textos levamos em conta as idiossincrasias estilísticas do escritor e consideramos também as condições em que alguns textos foram escritos ou originalmente divulgados. Corrigimos apenas o indispensável: a grafia dos nomes próprios, a pontuação e a concordância (quando absolutamente incorretas); atualizamos a ortografia e o emprego das maiúsculas. Conservamos ainda os sinais de dúvida deixados pelo escritor no texto: o ponto de interrogação entre parênteses ou a abreviatura de conferir (cf.), depois de alguma data que ele estivesse bem certo no momento.
Colaboraram na revisão inicial de alguns dos textos selecionados: Eneida Marques, Luciane Vaughn e Betty Heidemann. Esta última também cuidou da datilografia juntamente com Zezé Barela. A pesquisa foi realizada no Arquivo Público do Estado de São Paulo, na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, no Centro de Documentação do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP e no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Agradeço a Irma Block e a Maria Itália Causin o auxílio bibliográfico; a Haroldo Maranhão a separata da ABDE, e a Waldemar Torres a saudação a Gilberto Freyre e “O divisor das águas modernistas”.

O HOMEM DO PAU BRASIL NA CIDADE DELE

ALEXANDRE EULALIO
Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

Atrás da mesa de Joaquim Pedro de Andrade, no escritório da produção que a Lynxfilm instalou na rua Rui Barbosa paulistana, coração mesmo do Bexiga, um esboço de cartaz, que ainda é menos do que um projeto, reproduz, enormes, isolados do resto do rosto dele, os olhos luminosos de Oswald de Andrade – uns olhos que riem um riso indefinível e onde navegam, inseparáveis, malícia e ternura sarcástica. Oswald de Andrade – Oswáld, por favor, vamos acabar com essa bobagem de Ôswald – é O Homem do Pau Brasil, tema do novo filme do diretor de Guerra Conjugal, Os Inconfidentes e Macunaíma, que estará sendo rodado em São Paulo e arredores até a primeira quinzena de agosto. Trata-se de uma versão libérrima da vida de Oswald, recuperada com agilidade através do cine-olho implícito nas narrativas mais ou menos autobiográficas do próprio. O roteiro tratou de recriar – com a vivacidade, a sutileza e o rigor dos filmes anteriores de Joaquim Pedro – o itinerário surpreendente do filho gordinho e bem-educado de Dona Inês, o nosso conhecido Serafim Miramar. De modo sintético, com fidelidade mais ao espírito que à letra, nele se reconstrói o mundo em que viveu e a utopia que sonhou, entre duas guerras mundiais, esse hipotético João Ponte Grande, o qual, determinado pela circunstância paulista dele, vive perigosamente a desintegração do patriarcalismo oitocentista ao ritmo agitado e instável da contação do café, que ora permite, ora limita as fantasias do filho-família que ele foi.
Com um caprichado sarcasmo que é muito dele, Joaquim Pedro consegue captar a imagem dessa curiosa personagem, brasileiro até a ponta das unhas, desde o veleitarismo dos verdes anos até o encontro com a consciência política da maturidade e a marcha para a utopia que ele ainda empreendeu depois. Para conseguir isto, percorreu, de lápis em punho, meses seguidos, os múltiplos cadernos em prosa e verso desse Aluno de Poesia sempre disponível, aí desentranhando a linha de coerência profunda que atravessa os escritos de um inventor desigual mas sempre apaixonado. Jornalismo, ficção, poesia, teatro, polêmica, ensaio, correspondência – tudo que Oswald escreveu foi percorrido pelo cineasta, que ainda entrevistou contemporâneos e estudiosos da obra. O resultado desse esforço criativo foi uma narrativa cinematográfica vertiginosa, fascinante, que não abdica da complexidade e do humorismo, e onde os elementos da vida real fundem-se com a invenção do ficcionista, procurando uma coerência que se situa muito além da literalidade biográfica.
No afã de obter um Oswald íntegro, Joaquim Pedro acabou por reconstruir em O Homem do Pau Brasil – o título do filme sai de uma resenha assim intitulada que o jovem Carlos Drummond de Andrade publicou em dezembro de 1925 em A Noite do Rio de Janeiro – uma personagem atemporal, embora mergulhada até o pescoço na época em que viveu. Personagem que, do ponto de vista dramático, não envelhece e se mantém fisicamente idêntico durante todo o espaço do filme. Personagem que, de tão pejada de significados, acabou por se cindir espontaneamente em duas imagens paralelas e complementares, ainda que jamais independentes, personagens interpretadas respectivamente por Ítala Nandi e Flávio Galvão. Embora divididos numa dupla inseparável (um leitor de Jung seria tentado a identificar como o animus e a anima de um mesmo Eu), não prevalece divisão de funções masculinas e femininas nesse Oswald plural. A insólita solução dramática foi amadurecendo aos poucos na cabeça do diretor, que não a havia considerado a princípio, e, até a fase final do roteiro, pensou que o protagonista dele deveria ser interpretado, como os demais figurantes do filme, por um único e determinado ator, Chegara até mesmo pensar em Othon Bastos para o papel; este apenas não pôde aceitar o convite por motivo de compromissos anteriores assumidos. (Bastos acabaria por fazer uma ponta: o capitão do Rompe-Nuve, o transatlântico muito louco que trafega entre Oropa França e Bahia durante todo o decorrer do enredo). Mais adiante, prosseguindo esse processo cifrado de descoberta das próprias intenções, começou parecer a Joaquim que a solução correta para o caso consistiria na figura de Oswald interpretada por uma mulher. Teria lugar assim uma alusão decisiva (a princípio subterrânea mas por fim explícita) ao matriarcado que o escritor de João Miramar visualizou corno último destino da Humanidade – o matriarcado antropófago, estado ideal de Natureza, que, ao fim dos tempos históricos, virá permitir a liberação do sentimento órfico esmagado em nós por uma História sempre carrasca. Certamente foi a interpretação de Ítala Nandi como Heloísa de Lesbos, na edição José Celso d’O Rei da Vela oswaldiano, em 1968 – inesquecível a entrada de ítala envergando terno de linho branco completo e chapéu chile -, que terá levado Joaquim Pedro à escolha da atriz. Mas logo na cabeça do diretor teve lugar, mais radical ainda, a explosão desse arquétipo andrógino em duas figuras separadas; significando de modo ainda mais veemente a múltipla complexidade do protagonista. E a Ítala Nandi, primeiro Oswald, juntou-se como parceiro Flávio Galvão, um novo e inesperado Oswald II. Um e outro de todo distantes de qualquer semelhança física com a personagem histórica, mas por isso mesmo a partir dos textos perfeitamente aptos para criar, em clave super-realista, a presença do humaníssimo anti-herói que iriam encarnar meio-a-meio.
Colhendo os seus episódios decisivos, principalmente em duas obras de Oswald – Sob as Ordens de Mamãe e Serafim Ponte Grande – o roteiro de O Homem do Pau Brasil seleciona algumas das passagens narradas naqueles volumes, retomando-as e interpretando-as à própria maneira. Assim a estada de Isadora Duncan em São Paulo, no ano da graça de 1916, uma das páginas mais poderosas do volume de reminiscências oswaldiano, serve de brilhante abertura para o filme. O(s) protagonistas) encontra(m)-se loucamente apaixonado(s) pela bailarina-menina-prodígio Dorotéia – interpretada por Cristina Aché, mulher do diretor, que compõe em sutil filigrana a figura entre perversa e ingênua dessa Lolita anos’10 e não percebe(m) o alcance do aceno que a celebridade internacional sabidamente disponível do ponto de vista romântico quando em trânsito faz ao(s) jovem(s) representante(s) da imprensa paulistana. Os momentos de alta comédia em que os dois Oswalds contracenam com lsadora nos camarins do Municipal e nos aposentos da grande bailarina no hotel eram cenicamente muito rentáveis. Por isso Joaquim Pedro havia pensado reservar para o papel da “Diva” uma comediante de bela figura, porte de ginasta e amplas possibilidades histriônicas: Tônia Carrero. Tônia contudo leu o roteiro e, segundo as próprias palavras, achou-o “fraco”. Aliás contracenar também, em seqüência de conotação “sexy”, com uma outra atriz, pareceu incongruente, deselegante e incômodo à mundana Stella Simpson de Água Viva. O diretor decidiu-se então tomar outro partido: convidar para o papel isadorável, em grande estilo, uma bailarina de verdade, pouco importando tivesse ou não a mesma experiência dramática. Neste momento, em São Paulo, um nome se impunha naturalmente: Juliana Carneiro da Cunha, antiga aluna de Béjart e fundadora do grupo Mudra em Bruxelas, e que entre nós já havia dado o ar da sua graça e da sua poderosa presença hierática em mais de um espetáculo de vanguarda. Uma escolha feliz que rendeu nova vibração à personagem.
Ao contrário de Regina Duarte, que com espírito inventiva e muito profissional aceitou o papel essencialmente antiglamouroso e pouco simpático de Lalá, a esposa que ‘os Oswalds’ já não podem mais tolerar, papel em que pôde dar prova da própria versatilidade de atriz madura, Paulo Autran, convidado para a parte ao mesmo tempo dramática e farcesca do pai do herói, recusou-a, afirmando não lhe interessar fazer parte de um filme onde o primeiro dos sentimentos, o amor, não era respeitado, Substituiu-o com convicção um veterano detrás das câmaras que, agora, diante delas, revelou dotes insuspeitados e vocação inequívoca de ator tragicômico: Mário Carneiro, pintor e fotógrafo de primeira água, além de diretor de um longa-metragem que nasceu clássico, Gordos e Magros.
Como a vida do Oswald de Andrade histórico está decisivamente ligada à chamada “revolução modernista”, o Movimento de 22, com seus participantes e oponentes, não poderia ser esquecido na fita da sua vida, mesmo se evocado perfunctoriamente, como acontece em O Homem do Pau Brasil – onde o festival de fevereiro de 1922 é reconstituído no cenário mesmo que o abrigou: o Teatro Municipal. Mário de Andrade (interpretado com inegável sutileza e simpatia mimética por Paulo Hesse), Menotti del Picchia (Carlos Gregório, um dos atores da preferência de Joaquim Pedro), Anita Malfatti (removida da timidez e do encasulamento que eram seus pela beleza vistosa e pela irresistível sofisticação de Carmo Sodré) comparecem em cena e discutem as premissas da renovação estética nacional. Outros elementos ligados aos jovens escritores da vanguarda local também dão o ar da graça no filme. É preciso fazer referência à elegante composição da figura de Paulo Prado devida a Luís Linhares, a presença do poeta franco-suíço Blaise Cendrars, defendida com valentia por Marcos Fayad, e a personalidade estuante de simpatia e graça com que Etty Frazer compõe a grande anfitriã dos modernistas de São Paulo, Dona Olívia, que os despeitados insistem em chamar Dona Azeitona. Branca Clara, a musa artística dos Oswalds é interpretada com bela presença e muito espírito, charme e malícia por Dina Sfat; inspirada na figura emocionante de Tarslia, mas vivida segundo a modulação sarcástica de Serafim Ponte Grande, Dina recria essa personagem com absoluta convicção e “vis comica” apropriada. O último amor dos Oswalds no filme é Rosa Lituana, transposição ficcional da revolucionária Pagu; um papel interpretado com emoção por Dora Pellegrino nas seqüências em que se afirma a dimensão social e política do filme. Este, depois de inúmeras peripécias, conclui-se (como no Serafim) pelo seqüestro do Rompe-Nuve. Com o carregamento apropriado, o luxuoso vapor dirige-se para o alto-mar do futuro e da utopia, cenário da “apoteose dialética” (como a chamou o diretor). A bordo hão de se reencontrar, singrando para o destino comum, todas as personagens centrais do filme.
Neste resumo bastante capenga d’O Homem do Pau Brasil não podem ser esquecidas a participação de artistas notórios em pequenas aparições, todas elas mercantes, que enriquecem o filme como personagens de um friso: Grande Otelo, como o príncipe africano Tovalu; Paulo José, mensageiro de bordo; Nelson Dantas e Wilson Grey, missionários rumando para o Brasil; Marcos Pionka, presidente do estado; Lucélia Machiaveili, a megera; Guará Rodrigues, Biriba; Sérgio Mamberti, o fazendeiro de Morro Azul, e inúmeros outros ainda. A vigorosa ironia que deles se desprende contribui de modo decisivo para o significado final procurado pelo diretor, enriquecendo, com novas chamadas, o espírito de análise crítica que se procura despertar no espectador.
A cidade de São Paulo possui na obra de Oswald de Andrade uma presença constante e palpável. Esbatida numa meia névoa ainda simbolista em Os Condenados, entremostra-se na acelerada série de refrações cubo-futuristas que constituem as Memórias Sentimentais de João Miramar, deixa-se perceber na série dos grafitos agressivos recolhidos em Serafim Ponte Grande, até surgir afinal, representada de maneira voluntariamente figurativa, muito próxima ao espírito dos óleos proletários do Grupo Santa Helena, nos dois volumes de Marco Zero que o autor chegou a concluir. Num filme a ele dedicado, não poderiam faltar os sinais palpáveis da cidade em que ele nasceu, viveu e morreu. Todos nós sabemos, no entanto, ser atualmente quase impossível captar, principalmente num filme de época, o muito pouco que foi poupado da atmosfera sedutora desse passado recente. Reduzido à necessidade de ser na sua maior parte em interiores preservados quase por milagre ou ardilosamente reconstituídos pelos seus cenógrafos, os ambientes externos e internos de O Homem do Pau Brasil tiveram de ser completados com toques ora realistas, ora discretamente fantásticos, a fim de firmar a sensação de realidade literal (ou alusiva) que se desejava obter. A Hélio Eichbauer, cenógrafo por temperamento, artista dotado para um decorativismo monumental, abstrato, de amplo sopro, couberam os ambientes internacionais de teor vanguardista – os interiores de transatlântico, o ateliê parisiense de Branca Clara, o pavilhão “futurista” de Dona Azeitona. A Adão Pinheiro, pintor e ceramista, mais voltado para o pormenor do signo e a expressividade do ideograma, couberam os ambientes que procuravam reproduzir o cotidiano brasileiro e as atmosferas pouco a pouco fixadas pelo tempo – a casa praiana do pai deSena, o salão de Coelho Neto, a Fazenda Morro Azul, as vilas operárias do Brás. Inventivas e ágeis, os figurinos de Diana Eichbauer, recriados com relativa liberdade e sem uma intenção filológica precisa (que seria extrapolante neste caso), contribuem de modo decisivo para fixar os ambientes. Os poucos exteriores que foi possível aproveitar – estações ferroviárias, praças desertas, o Caminho do Mar, encostas da represa de Guarapiranga, praias de Bertioga – procuram compensar, com melancolia confessa, essa perda inevitável do perfil da cidade. No entanto, a densidade dos episódios cômicos e dramáticos que se sucedem num ritmo ininterrupto no sábio roteiro de Joaquim Pedro acaba por anular a ausência do cenário irremediavelmente destruído.
Assim, em breve, na noite paulistana, o olhar espevitado e irônico de Oswald vai poder somar, outra vez, à “maravilha de milhares de brilhos vidrilhos” de que falava um outro Andrade – o grande Mário -, a cintilarão de tudo aquilo que ele viu. E que nós veremos também por obra e graça de O Homem do Pau Brasil.
Oswald, os ambientes 1920 do Automóvel Clube, a livraria do

TRAJETORIA
DE OSWALD ANDRADE
“O que importa para o artista moderno é traduzir nossa época e a sua personalidade. O resto é literatura” (Rubens Borba de Moraes)
Mesmo depois de decorridos 60 anos de publicado, o romance Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) perturba pela sua modernidade. E modelo de prosa revolucionária pouco conhecida pelo grande público. Certamente Oswald de Andrade inaugurou no Brasil a prosa de Vanguarda, ensinando aos seus contemporâneos como adaptar à narrativa as experiências cubistas, bem-sucedidas na pintura moderna de Picasso e Braque; prefaciando os novos lançamentos da época, apoiou as tentativas subsequentes de renovação da ficção brasileira: apresentou, com a “Carta Oceano” (l926), o Pathé Baby de Antônio de Alcântara Machado à moderna literatura da época.
Este percurso de modernização da prosa brasileira configurou-se por etapas, com tenacidade e pesquisa artesanal séria, embora se afirme, equivocadamente, que a obra de Oswald foi conseqüência apenas da genialidade de improvisação. Na realidade, Oswald levava muito tempo para considerar seus textos maduros, para divulgação. As modificações radicais que sofriam seus projetos resultaram da angustiante e bem-sucedida busca de um ideário autêntico e moderno. Rubens Borba de Moraes lembrava que as invenções concretizadas nos dois primeiros decênios do século modificaram radicalmente a percepção estética. Sendo assim, “0 homem não tem mais cinco sentidos, tem centenas, milhares. A velocidade da vida moderna obriga o artista a realizar depressa o que ele sentiu depressa, antes da inteligência intervir. Desse estado de coisas nasceu a sintetizarão da arte moderna”. O autor de Domingo dos Séculos assinalou um fato curioso e que foi ao mesmo tempo uma das grandes peculiaridades do processo construtivo da narrativa miramarina. No romance de Oswald de Andrade, além da sintetizarão quase que extrema da simultânea multiplicidade de acontecimentos, aconteceram momentos de análise contundente e minuciosa. Um perfeito retrato da burguesia e seus conflitos perante a modernidade que invadia seu pequeno mundo.
Miramar foi planejado e redigido em parte por volta de 1915, reescrito várias vezes até atingir a forma sincopada e concisa da sua versão final. Muitas foram as redações não depuradas dos ornamentos supérfluos. Oswald costumava ler seus trabalhos para os amigos bem antes do lançamento, ou pelo menos antes da redação final. Algumas referências esparsas dão conta da trajetória desse romance. Ribeiro Couro (em carta datada de 21 de maio de 1920) pedia notícias de Miramar e A Estrela do Absinto; Sérgio Buarque, em O Mundo do Literário, (9 de janeiro de 1923), anunciava o segundo e o terceiro volume do romance A Trilogia do Exílio e as Memórias de João Miramar.
Os diferentes desmontes que sofreu o romance confirma a pratica de um projeto consciente voltado para a pesquisa incessante de estilo próprio e atual: um interesse novo para tornar a frase diversão pura do espírito. Como definia o romancista: “chapas fotograficamente batidas de estados de espírito e de ação”, onde domina o “divertimento estilístico que procura a poesia e realiza o ritmo”. Foram diversificados os procedimentos empregados nessa incansável busca da forma adequada deste divertimento estilístico, até alcançar a modernidade. Acredito que somente A revolução melancólica ( do Marco Zero) foi redigida em tempo recorde para poder participar do II concurso Literário latino-americano, embora, fundamentada em trabalho de pesquisa prévio e demorado Oswald declarava em entrevista (Diário de S. Paulo, 8 jan. 1943): “Em dois meses redigi 364 páginas d’ A revolução melancólica. Mais tarde o romancista explicava o processo de construção desse livro: “( … ) fiz uma obra de trabalho sereno. Isso me custou muito esforço e paciência”; “Há nele um fabuloso material colhido entre os vários dialetos e línguas que se falam neste tumultuoso aglomerado de raças e de povos tão diferentes que é São Paulo. ‘Colhi material em todos os setores. Não fiquei no Brás, nem no Bexiga”. (o romance terminou abiscoitando o prêmio do concurso, juntamente com Jubiabá de Jorge Amado.)
Miramar pediu auxílio à linguagem e bem-humorada o mundo provinciano do cinema para criticar de forma precisa e medíocre da pequena burguesia. São sobejamente conhecidos, depois sobretudo das análises de Antônio Cândido, Mário da Silva Brito e da publicação das suas Memórias, os lances autobiográficos desta narrativa crítica. A permanência de Oswald na Europa, em 1912, mudou drasticamente a sua visão de mundo: “Tinha-se aberto um novo front em minha vida (…) A Europa fora sempre para mim uma fascinação Tudo isso vinha confirmar a idéia de liberdade sexual que doirava o meu sonho de viagem longe da pátria estreita e mesquinha, daquele ambiente doméstico, onde tudo era pecado (… ) Apenas tinha uma nova dimensão na alma conhecera a liberdade” (Um homem sem profissão. R.J., Civ. Brasil. 1972).
Os primeiros esboços como bem mostrou Haroldo de Campos (Estilística miramarina) não tiveram o mesmo grau de ruptura e inovação da versão definitiva. A radicalidade da experimentação da atualidade da prosa miramarina impuseram-se na medida em que o mundo se transformava e com isso mudava a maneira de seu irrequieto autor enxergar as coisas. Oswald pretendia um ritmo mais dinâmico, a fim de aproximar a ordem simultaneísta da técnica do cinema, imprimida antes de maneira comedida em Os Condenados. Acreditava que a obra de arte era a forma encontrada pelo artista com o intuito de fixar a matéria presente em toda parte e esta forma devia estar em consonância com seu tempo e seu ambiente. O caráter fragmentário, solto, caótico da narrativa miramarina surgiu também da noção de que o romance devia ser uma. resposta à abrupta transformação por que passava a civilização ocidental. Apesar de todo aprendizado, o grande impulso à modernização da redação conhecida deste romance foi dado graças a sua permanência, durante o ano de 1923, em Paris. A amizade com Blaise Cendrars facilitou o contato do casal Tarsiwald (apelido carinhoso de Mário de Andrade para Oswald e Tarsila) com as manifestações mais atuais da arte francesa. arte francesa. Em Paris redigiu o texto final do romance, conforme depoimento de Tarsila a Araci Amaral.
A novidade da narrativa desconcertou inclusive seus companheiros de luta modernista, até mesmo os mais combatentes. Carlos Drummond de Andrade descreveu (carta a Oswald 3 jan. 1925) a repercussão do livro entre os intelectuais mineiros:…”aqui chegaram as “Memórias” que derreteram a boa ingenuidade mineira em ohs! e ahs! mais ou menos copiados do dr. Pilatos E o seu livro permita-me que decalque o- nosso Mário de Andrade – é uma cilada”. Mas o grande poeta mineiro não escondeu seu entusiasmo:, “(… ) admiráveis é mesmo o único livro de prosa verdadeiramente moderno que até hoje o Brasil produziu”. Os realizadores da revista Estética – Prudente de Moraes, neto, e Sérgio Buarque – se queixaram da falta de articulação da narrativa, lamentando a dificuldade para classificar o livro: “gênero indeterminado”, “esquema ligeiro e pitoresco”. Apesar dos elogios, as mesmas ponderações no que diz respeito ao “erro brasileiro”, feitas primeiro por Mário e depois por Drummond: “Ninguém fala o brasileiro de Miramar. Sua construção de um raro poder expressivo é personalíssima. De artista. Portanto de exceção”. Mário já havia observado “uma dicção eminentemente artística e personalíssima”; Drummond lembrou que “a linguagem pau brasil (… ) saiu eminentemente artística e personalíssima”; Emílio Moura fez coro e sentenciou romancista nervoso “cheio de vida na sua técnica pessoal”. Todavia, foi este poeta mineiro que em A Revista (jul. 1925) fez a resenha mais severa. Suas impressões sobre o recém lançado romance ainda estavam sob o impacto das incontáveis leituras que deve ter feito do último livro de poemas do Mário: “Miramar, como toda a literatura recente do Oswald de Andrade,- lembremo-lo em tempo, não vai além de uma tentativa( … ) Ele podia colocar, naquele prefácio de Machado Penumbra a sinceridade da Paulicéia Desvairada”. Apesar de todas as restrições dos modernistas, Mário de Andrade foi quem mais se entusiasmou com o Miramar. Na sua costumeira correspondência com Sérgio Milliet anunciava: “Memórias Sentimentais publicados. É uma delícia” (Carta de 11.08.1924). Plínio Salgado, outro modernista de primeira hora, mais tarde ovelha desgarrada, considerou a forma da narrativa -intransigente, intempestiva, ilógica e contraditória. Fez várias ressalvas à realização do romance, mesmo assim admitiu ter encontrado neste livro um grande repertório de orientação e sugestão. E não resta a menor dúvida, o estilo desta narrativa serviu de modelo para o autor de O estrangeiro. Aliás, Miramar fez escola, como bem demonstrou na época do lançamento a resenha de Prudente de Moraes, neto, na Revista do Brasil (30, out. 1926): “Há trechos e trechos de verdadeiros pastichos do autor de Pau brasil. Desde a forma fragmentada até os menores cacoetes (… ) a escolha das imagens, o ritmo da frase (… )”. Às críticas a esta manipulação desordenada da língua nas suas obras modernistas, Oswald de Andrade respondia: “(…) nossas aparentes impropriedades, nossos possíveis exageros (de que abertamente nos orgulhamos) são voluntários e tenderia à fixação e instalação de tesouros populares que vem vibrantemente enriquecer o estilo e a língua que falamos” (Trecho do comentário de Oswald sobre a polêmica travada no Correio Paulistano entre o arquiteto G. Warchavichic e o engenheiro Dácio de Moraes.)
Ao que parece, a história de Serafim é muito semelhante àquela do Miramar. Oswald de Andrade, depois de escrever o Serafim Ponte Grande entre 1923 e 1926, foi pacientemente condensando e burilando o texto até alcançar a versão definitiva. Dez anos antes do seu lançamento, anunciava em carta ao seu amigo Blaise Cendrars: Mon roman Serafim Ponte Grande vá être imprimé. Um ano antes, portanto, do lançamento do Miramar. Teria mesmo Oswald, naquela época, concluído o Serafim? Mário de Andrade, escrevendo para Tarsila em Paris (dezembro de 1924), acaba com todas as dúvidas sobre a data de elaboração do Serafim. Mário perguntava a amiga sobre o Oswald: “Que faz ele? Mostrou-te o Serafim Ponte Grande? Ficou (o Oswald) meio corcundo comigo porque eu disse que não gostei”. Em vários artigos de jornais c entrevistas Oswald comentou sobre o livro em preparo: “0 meu espírito banha-se numa piscina, inunda-se de repouso e de alegria, quando, por exemplo, chego com um dos personagens prediletos Serafim Ponte Grande, o burocrata transfigurado – à conclusão urbanista de que “0 Largo da Sé” é o ponto de junção das ruas Direita e 15 de Novembro”. Ao crítico Tristão de Athayde (carta publicado em O Jornal), observava: “Deixo ao meu compatriota Serafim Ponte Grande o prazer de lambuzar o cérebro no “tanglefoot” do Harry e a vangloria de cear com as estreias verticais de Hollywood, na casa da mulata Florence, onde aliás vou- por causa da lingüiça com melado”. Ambos os textos (a entrevista e a carta) datam de 1925, o que indica que a esta altura muita gente tinha tomado conhecimento do seu “grande não livro”. Como ocorreu com o romance anterior, Serafim foi li para os amigos, ainda em 1924, e Mário deu suas impressões a Sergio Milliet -“Muito fraco. Muitíssimo inferior à Memórias Sentimentais” (Carta de 1924).
Oswald projetava um romance e construía aos poucos, embora como acostumava acontecer, já tivesse título dedicatória (modificada a medida e que as relações com as pessoas homenageadas sofriam abalos). Para o Serafim a Revista do Brasil (30 nov. 1926) informou sobre um longo prefácio dedicado à sua geração e que de certa for se constituía numa espécie de profissão de fé modernista, com uma detalha justificativa – dedicatória a D. Olívia Guedes Penteado, homenagem pelo s apoio e incentivo à arte moderna Brasil. A revista Terra Roxa e Outras Terras (l7 set. 1925) publicou um fragmento do romance: “Do Meridiano Greenwich”. Comparados os dois te tos, o da revista paulista e o de 1933, surpreendente o progresso do escritor na conquista de um estilo próprio e moderno. Essa discrepância entre. os textos evidencia mais uma vez que a modernidade oswaldiana não brotou de relance foi o resultado de um longo Processo aprendizado.
É também evidente que este romance foi amadurecido simultaneamente proposta da antropofagia. Aliás as ligações entre os dois projetos são mui claras. Embora a Revista de Antropofagia tenha sido uma produção de grupo de realização posterior, salta à vista marca oswaldiana na experimentar da linguagem, apresentando a mesma quebra dos padrões estéticos praticados primeiramente em Miramar e depois e Serafim. Os parentescos entre a ficção oswaldiana e a revista são incontáveis. O emprego da colagem e da paródia nesses dois romances e na citada revista o mesmo aspecto zombeteiro e derrisivo; o dicionário de nomes que compõe capítulo do livro “No elemento sedativo” e a seção Brasiliana (da primei fase da revista) são montados dentro mesmo espírito de colecionar tolices asneiras que espalhavam de certa forma facetas do ideário nacional (aliás a revista Terra Roxa e outras Terras manteve também uma seção com o objetivo reunir as “Manifestações espontâneas de Pau Brasil”); um desfile de alusões dessacralizadoras a fatos literários e autores consagrados tanto no livro c mo na revista; glosa do fluxo normal narrativa no Miramar e no Serafim, como da linguagem usual da revista.
No espaço de tempo que vai 1923 até a data da publicação (l933), Serafim ganhou diferentes montagens. Estes intervalos demorados entre a primeira versão da obra e sua data publicação são sintomáticos de uma metodologia cuidadosa e de um exaustivo trabalho de artesão. Anunciam, an de mais nada, a paciente e laboriosa tentativa do romancista em aperfeiçoar o seu estilo, transformando-o no retrato das suas idéias estéticas do momento das suas observações a respeito do desenvolvimento da narrativa moderna. espantosa a consciência oswaldiana torno da importância e do alcance seu trabalho. Sabia que estava subvertendo os padrões da ficção tradicional ou pelo menos que estava fazendo ai de novo em relação ao que havia gênero.

Objetivos:
– Criar condições acadêmicas estimuladoras e favoráveis à reflexão, pesquisa e aprofundamento das questões relativas à Literatura. – Estimular a produção docente e discente, de acordo com as prioridades de pesquisa estabelecidas pelo programa. – Manter contato, colaborar e estabelecer intercâmbios e convênios com centros de pesquisa nacionais e estrangeiros que atuem no âmbito da Literatura. – Preparar professores de ensino superior para o exercício da docência nas áreas da Teoria, da Crítica Literária e das Literaturas Vernáculas. – Propiciar condições para a formação de pesquisadores de alto nível, aptos a construir criticamente novos parâmetros de ensino e pesquisa no domínio do literário.
Dirigido a:
Graduados em Letras e áreas afins.
Diploma:
Mestre em Literatura e Crítica Literária
Conteúdo:
Linhas de Pesquisa

Fundamentos teóricos: A literatura e a prática do texto
Esta linha de pesquisa reúne trabalhos centrados na utilização de conceitos fundamentais para o estudo do fenômeno literário. Buscar e/ou construir teoria é o caminho para realizar investigação consistente sobre o texto literário. A representação literária como forma significativa e verossímil, os efeitos estéticos projetados pela ação discursiva e as manifestações do fenômeno literário nos seus diferentes gêneros serão núcleos geradores da rede teórica a ser considerada nesta Linha de Pesquisa. A prática de análise de texto, por sua vez, ao mesmo tempo em que se enriquece pela mediação teórica, é também um modo eficaz de utilizar, experimentalmente, tais conceitos pela inter-relação com o texto literário, na sua especificidade e concretude.

Crítica literária: literaturas e interconexões histórico-culturais
Esta linha de pesquisa tem por objetivo o estudo da crítica em suas interconexões histórico-culturais, como fundamento para a literatura. Como paradigmas – Crítica, História e Cultura – devem assumir um ângulo de articulação, que busque a unidade de base do estudo do objeto literário.Tal articulação privilegia a operação textual como matriz da invenção literária. O fazer literário demonstra essa convergência dos sentidos poético e histórico-cultural da linguagem, conferindo unidade à literatura. A cada intervenção criadora nova, a literatura procura, por sua vez, reler o passado, à luz de uma prática crítica entendida como método de trabalho centrado na correlação dialética entre criação e tradição.

Literatura: Ensino e Educação
Esta linha de pesquisa aspira à formação de pesquisadores, capazes de intervenção no Ensino Formal e Informal. Prevê projetos que visem ao aperfeiçoamento do ensino, seja na formação de docentes, seja no aperfeiçoamento do material didático, e ainda à melhoria do meio em que os docentes atuam.Tais orientações devem ser passíveis de adaptação, a fim de fornecerem as iniciativas informais de educação com a mesma finalidade.O processo de transmissão do conhecimento formal e informal enfocará os seguintes aspectos de realidade: o saber; o saber fazer, o saber conviver, que passam a ser centros de investigação e inovação literárias.

Estrutura Curricular

Disciplinas Obrigatórias
•Teoria Literária (3 créditos)
• Correntes Críticas da Literatura (3 créditos)
• Projeto de Pesquisa (3 créditos)
Disciplinas Eletivas – oferecidas no 2º semestre de 2007
•A poética da narrativa: momentos fundamentais de sua história (3 créditos)
•Literatura Comparada: Oriente e Ocidente (3 créditos)
•Tópicos da Literatura Brasileira: o gênero infanto-juvenil (3 créditos)
•Literatura Brasileira – o romance brasileiro do século XIX (3 créditos)
• Tópicos da Literatura Portuguesa: textos jornalísticos selecionados de Eça de Queiroz (3 créditos)
• As Disciplinas Eletivas sofrem variações semestrais de acordo com as necessidades dos projetos em andamento e a avaliação do Colegiado do Programa

As Disciplinas Eletivas sofrem variações semestrais de acordo com as necessidades dos projetos em andamento e a avaliação do colegiado do Programa

Atividades Programadas
São opções variadas, extracurriculares, oferecidas semestralmente pelo Programa. Elas visam propiciar ao aluno a oportunidade de complementar sua formação acadêmica. Essas atividades são pontuadas – de 0,5 a 2.0 – e compõem o quadro geral de créditos obrigatórios.

Grupos de Pesquisa

O Grupo de Pesquisa O Narrador e as Fronteiras do Relato (NARFRONT) tem por objetivo o estudo dos processos de narratividade no seu circuito de produção-recepção de sentidos, tendo por referência a transformação histórico-cultural, desde as raízes do mito e da oralidade, até o cruzamento com as linguagens técnicas, na sua variada gama de suportes reprodutores. Propõe-se à Investigação das mutações conceituais sofridas pelas cenas discursivo-narrativas nas quais o papel do autor, do narrador, da personagem, do relato e dos pactos de comunicação e de leitura têm suas funções alteradas substancialmente.

O Grupo analisa tipos de narrativas, destacando como se dão, na linguagem, no texto, as transformações das diversas categorias narratológicas. Resultados: Publicação dos números 1, 2, 3 e 4 da Revista Kalíope; Ciclo de debates de filmes: projetos integrados com outras Instituições de Ensino Superior – FATEA – Lorena/SP: Maio/2000 – Olhares e falas do sagrado; Maio/2002 – Transgressões do Sagrado; Nov./2002 – Mito, rito e arte: interfaces; Set/2005 – Herói e Narrador; 2004 – Jornada: Clarice Lispector; 2005 – Jornada: Literatura e outras áreas.

Estudos de Poética: Interconexões Diacrônico-Sincrônicas na Poesia Brasileira e Portuguesa
O grupo tem como principal finalidade a reflexão crítico-teórica sobre os processos de criação e, simultaneamente, a análise das diferentes manifestações do texto poético, em interconexão com seus respectivos contextos histórico-culturais. Com isto, pretende-se estudar a poesia não apenas como texto, mas também como prática comprometida e em diálogo com a história e com a cultura. As pesquisas do Grupo têm por fundamento diferentes tendências teóricas, sem se comprometerem com uma linha teórica ou metodológica privilegiada de antemão, objetivando-se uma abertura de reflexão, análise e crítica. Fundamentados numa ótica da analogia, os trabalhos de pesquisa do grupo desvinculam-se de pressupostos racionalistas e/ou cientificistas, buscando, antes, apreender o universo imagético criado pela poiesis, que põe continuamente em processo o dinamismo da escritura poética, do homem, da natureza, da história, da cultura, enfim, a multiplicidade dos saberes. Focalizando representantes ora da tradição, ora da modernidade, as pesquisas empreendidas pelo grupo investem, igualmente, tanto na proposição teórica quanto na experiência de leitura crítica. Do ponto de vista teórico, buscam discutir e sistematizar a natureza e o funcionamento do poético, entrevendo, no debate de idéias, o modo de ser da consciência poética do passado e do presente, assim como seu compromisso com o futuro. Do ponto de vista crítico, visam evidenciar as produções mais significativas de diversas correntes e épocas, ressaltando padrões criativos e experiências individuais fecundas e inovadoras de poetas brasileiros e portugueses.

Corpo Docente

Beatriz Berrini – Doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo
Biagio D’Angelo – Doutorado em Letras pela Universidade Russa de Estudos Humanísticos.
Edilene Dias Matos – Doutorado em Comunicação e Semiótica/Literaturas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Fernando Segolin – Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Juliana Silva Loyola e Santana – Doutorado em Letras pela Universidade Estadual Paulista.
Maria Aparecida Junqueira – Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Maria José Gordo Palo – Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Maria Rosa Duarte de Oliveira – Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Vera Lucia Bastazin – Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC/SP

Literatura comparada
Disciplina Eletiva: Literatura Comparada
Prof. Dr. Biagio D’Angelo
Semestre: 3º 2011
Dia e horário da disciplina: Sábado 09h30m às 14h30m
Linha de pesquisa: Fundamentos teóricos: a literatura e a prática do texto; Crítica Literária: Literatura e Interconexões Histórico-Culturais.
Ementa: Princípios e métodos da literatura comparada, seu valor histórico-cultural e sua raiz filosófica. Introdução à mentalidade da comparação segundo a hermenêutica e a crítica literária contemporânea. O fenômeno literário: periodização, cânone, modelos teóricos, taxonomia, gêneros. Estudo comparativista da literatura brasileira com as demais literaturas e culturas. A Literatura de Viagem: a questão da alteridade.
Bibliografia Básica:

BLOOM, Harold. O cânone ocidental. São Paulo: Objetiva, 1995.
CARVALHAL, Tania. O próprio e o alheio. Porto Alegre: Unisinos, 2004.
CARVALHAL, Tânia; COUTINHO, Eduardo (org.). Literatura comparada. Textos fundadores. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
CHIAMPI, Irlemar. Barroco e Modernidade. São Paulo: Perspectiva, 1998.
COUTINHO, Eduardo (org.). Fronteiras imaginadas. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.
CAMPOS, Haroldo de. A arte no horizonte do provável. São Paulo: Perspectiva, 1977.
GONZÁLEZ ECHEVARRÍA, Roberto. Mito y archivo. Una teoría de la narrativa latinoamericana. México: FCE, 2000.
NITRINI, Sandra. Literatura comparada. São Paulo: Edusp, 1997.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas literaturas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
PRAZ, Mário. Literatura e artes visuais. São Paulo: Cultrix, 1982.
WELLEK, René e WARREN, A. Teoria da literatura. Lisboa: Europa-América, 1976.

LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
A Carta, de Pero Vaz de Caminha

——————————————————————————–

Edição de base:
Carta a El Rei D. Manuel, Dominus, São Paulo, 1963.

Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que — para o bem contar e falar — o saiba pior que todos fazer!

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza — porque o não saberei fazer — e os pilotos devem ter este cuidado.

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:

E digo quê:

A partida de Belém foi — como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.

Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser !

Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas… não apareceu mais !

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha — segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas — os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças — ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante — por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças — até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitanisol-postoa. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-posto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.

E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.

Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.

O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.

Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças — ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.

E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d’água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa.

Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar.

Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais.

Dos que ali andavam, muitos — quase a maior parte –traziam aqueles bicos de osso nos beiços.

E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.

E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d’escaques.

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.

Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d’água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo.

Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.

E com isto nos tornamos, e eles foram-se.

À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu — ele com todos nós — em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias — duas ou três que lá tinham — as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.

Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d’água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem.

E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.

E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam quando cá Vossa Alteza mandar.

E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos.

E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.

Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos.

Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.

E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele.

Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.

Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum.

Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra.

Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.

Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles.

Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.

E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.

E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.

E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lançou-o na praia.

Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem — para os bem amansarmos !

Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito, nunca mais aqui apareceram — fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montesinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas.

Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre-Douro-e-Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir.

Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.

E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.

Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.

Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.

E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite.

Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vô-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.

Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.

Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!

E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.

Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns que creio que o Capitão a Ela há de enviar.

Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E não houve mais este dia que para escrever seja.

Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela. E não tornou a aparecer lá.

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis. E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles.

Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.

Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.

Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!

Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pajem; e Aires Gomes a outro, pajem também. Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos — o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.

E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.

Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!

Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.

Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos — um a um — ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado — era já bem uma hora depois do meio dia — viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.

E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior — com respeito ao pudor.

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.

Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.

Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia… muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos — terra que nos parecia muito extensa.

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s