Pensadores da Linguagem

A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
1
A amizade para Foucault:
resistências criativas face ao biopoder1
Hélio Rebello Cardoso Jr.2
Thiago Canonenco Naldinho3
Resumo: O artigo trabalha a noção de amizade em Foucault como um modo de vida que
se opõe ao processo de normalização empreendido pelo biopoder. Inicia com uma
caracterização acerca do Estado Moderno. Logo após, aborda a historicidade dos processos
de subjetivação e de como a atitude frente a estes implica estados de maior autonomia ou
sujeição. Em seguida, aborda a amizade como resistência à normalização, situando-a em
relação ao prazer e à sexualidade. Por fim, discute o papel da filosofia no processo de
constituição da amizade, particularmente quanto à possibilidade de pensá-la por meio de
uma teoria das relações.
Palavras-chave: Foucault; amizade; vida; existência; subjetivação.
1. Poder, subjetivação e amizade
Segundo Foucault (1995a, p. 236-239), no decorrer do século XVI surge uma nova
forma política de poder, em constante desenvolvimento até hoje, chamada de Estado. Este
tipo específico de poder não é mais permeado pela idéia de que seu fim seria a felicidade da
população que governa; nem tampouco a relação entre o governante, seu território e seu
povo; mas antes por uma nova forma de racionalidade intitulada “razão de Estado”. Desde
então, a finalidade do governo volta-se para o próprio Estado: sua manutenção,
desenvolvimento e consolidação (FOUCAULT, 2005a, p. 304-306).
Dentro dessa dinâmica administrativa, o Estado Moderno Ocidental dispôs de um
conjunto bem específico de técnicas de governo chamado de polícia que tinha por
finalidade auxiliar no gerenciamento dos recursos disponíveis. Tal tecnologia cuidava
praticamente de tudo relacionado à vida daqueles que constituíam a população governada:
religião; moralidade; saúde; abastecimento; ruas, pontes, calçadas e edifícios públicos;
segurança pública; artes liberais (artes e ciências); comércio; fábricas; empregados
domésticos e carregadores; pobres; etc. (FOUCAULT, 2005a, p. 312). Todavia, esta
preocupação com a vida dos indivíduos não se dava, como dissemos, com a finalidade da
atingir a felicidade destes, mas especificamente com o objetivo de “aumentar
permanentemente a produção de alguma coisa nova, considerada como podendo
consolidar a vida cívica e o poderio do Estado” (FOUCAULT, 2005a, p. 315).
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
2
Não se tratava de uma ação solidária ou virtuosa, mas de uma estratégia enfocada
na elaboração de saberes sobre o homem, a qual era subdividida em dois pólos: um
quantitativo e globalizador, referente à população; e outro, analítico, referente ao indivíduo
(FOUCAULT, 1995a, p. 238). O primeiro destinava-se a tratar das questões de larga escala,
concernentes à administração das relações recíprocas e vivas entre os elementos físicos e
econômicos do Estado e a população. Quanto ao aspecto analítico, o Estado visava
descobrir e catalogar, também com fins administrativos, as necessidades e os gestos mais
ínfimos do cotidiano das pessoas.
Um murmúrio que não cessará começa a se elevar: aquele através do qual as
variações individuais de conduta, as vergonhas e os segredos são oferecidos pelo discurso
para as tomadas do poder. […] Todas essas coisas que compõem o comum […] se tornaram
descritíveis e passíveis de transcrição, na própria medida em que foram atravessadas pelos
mecanismos de um poder político (FOUCAULT, 2003, p. 216).
Desse olhar minuciosamente normativo desenvolveram-se saberes relacionados
tanto às ciências sociais e humanas quanto à medicina e à literatura, os quais contribuíram
cada vez mais para a crescente intervenção do Estado na vida dos indivíduos
(FOUCAULT, 2003, 2005a). Com efeito, toda a Episteme dessa época se estabelece a
partir de um diagrama de poder que revela a origem das ciências cujo objeto é o homem.
De tal modo, é por isso que se pode dizer que essa forma tão característica de
racionalidade política surgida no século XVI, permeada pela idéia da razão de Estado, é
relativa a um poder constituído por uma astuciosa combinação – desenvolvida a partir de
uma antiga tecnologia de poder pastoral – de técnicas de individualização e de
procedimentos de totalização. Essa forma de poder não ignorou a existência dos indivíduos
em favor da população em geral, mas sim, concomitantemente à atenção dirigida a esta
última, trabalhou arduamente na preservação e no estudo da vida dos indivíduos com a
condição de que cada um destes fosse submetido a um conjunto de modelos muito
específicos (FOUCAULT, 1995a, p. 236-237). Em particular, a racionalidade política do
Estado, em sua forma analítica, ou seja, na medida em que se aplica ao indivíduo, engloba e
redireciona uma antiga figura dos modos de subjetivação, característica do Cristianismo.
Trata-se do poder pastoral, isto é daquele processo de subjetivação pelo qual o indivíduo
encontra a verdade sobre si mesmo através de um minucioso exame de sua consciência. O
poder pastoral pressupõe a existência, virtual ou atual, de um pastor ou diretor de
consciência perante o qual o auto-exame de consciência é feito. Por isso, o mecanismo
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
3
característico desse poder é a confissão, a qual será re-funcionalizada através do poder
analítico do Estado.
Tendo tudo isto em vista, retornando à atualidade, podemos ainda observar a
presença de tal racionalidade política atuando, sempre visando a preservação e o
fortalecimento dessa forma de poder, como “matriz moderna da individualização” –
impondo uma individualidade padronizada, da qual decorre, conseqüentemente, certo
empobrecimento no desenvolvimento de relações entre as pessoas.
Vivemos em um mundo relacional consideravelmente empobrecido pelas
instituições. A sociedade e as instituições que constituem sua ossatura limitaram a
possibilidade de relações, porque um mundo relacional rico seria extremamente
complicado de administrar (FOUCAULT, 2004a, p. 120).
O homem, sob esse ponto de vista, estaria impedido de escapar às imposições de
individualidade do regime de saber, tornando-se sujeito apenas através de processos de
sujeição. Estaria, desse modo, sob o jugo de um “governo da
individualização” (FOUCAULT,1995a, p. 235-237).
Para Foucault, não podemos aceitar tal estado de submissão, pelo contrário,
“devemos lutar contra esse empobrecimento do tecido relacional” (FOUCAULT, 2004a, p.
120). A estratégia para tanto encontrar-se-ia precisamente na relação que o indivíduo
mantém consigo mesmo. “[…] não há outro ponto, primeiro e último, de resistência ao
poder político senão na relação de si para consigo” (FOUCAULT, 2004b, p. 306). Trata-se
de uma conversão do poder. É a linha do poder que ao ser dobrada constitui um dentro,
um forro, e é este espaço que o homem habita; proporcionando assim uma “relação da
força consigo, um poder de se afetar a si mesmo, um afeto de si por si” (DELEUZE, 1988,
p. 108). Esta dobra, inventada pelos antigos gregos, não deve ser compreendida apenas
como uma forma de defesa, mas como condição de resistência ofensiva, de enfrentamento,
ao poder.
Os modos pelos quais nos tornamos sujeitos, os modos de “subjetivação”,
aparecem e se desenvolvem historicamente como “práticas de si” que, embora vigorem
dentro de práticas discursivas (saberes) e práticas de poder que testemunham pela
descontinuidade de suas formas históricas (FOUCAULT, 1984a, p. 23), correspondem, no
campo específico da sexualidade ou aphrodisia[iv], a quatro grandes focos de
“problematizações”, a saber, “natureza do ato sexual, fidelidade monogâmica, relações
homossexuais, castidade” (FOUCAULT, 1984a, p. 17), as quais atravessam as pretensas
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
4
oposições entre a “filosofia pagã”, a “ética cristã” e a “moral das sociedades européias
modernas” (FOUCAULT, 1984a, p. 18).
A subjetividade, o sujeito, para Foucault, envolve um processo de subjetivação,
visto que, segundo suas próprias palavras, não existe “constituição do sujeito moral sem
modos de subjetivação” (FOUCAULT, 1984a, p. 28), ou seja, toda experiência que
concretiza uma subjetividade envolve modos historicamente peculiares de se fazer a
experiência do si (subjetivação). Toda subjetividade expressa algo de impessoal porque
supõe processos de subjetivação onde se dá a “repartição de singularidades” de que fala
Deleuze (1988). Assim, para valermo-nos da precisa terminologia deleuzeana, a
subjetividade é um “efeito massivo” que provém de um processo singular. Os saberes e os
poderes de todos os tempos procuram domar os processos de subjetivação, mas estes lhes
escapam perfazendo uma história da resistência relativa à vida, pois “o ponto mais intenso
das vidas, aquele em que se concentra sua energia, é bem ali onde elas se chocam com o
poder, se debatem com ele, tentam utilizar suas forças ou escapar de suas armadilhas”
(FOUCAULT, 2003, p. 208).
De modo que, de maneira semelhante aos antigos gregos5, seria legítimo supormos
que o indivíduo moderno através do governo de si poderia impor uma resistência ativa e
direcionada contra a dominação imposta pelo biopoder. Tal resistência mostra-se presente
nas lutas existentes desde o surgimento do Estado Moderno que colocam em questão o
estatuto do indivíduo e se propõem não tanto atacar uma instituição, classe ou grupo em
específico, mas antes essa precisa forma de poder que “categoriza o indivíduo, marca-o
com sua própria individualidade, liga-o à sua própria identidade, impõe-lhe uma lei de
verdade, que devemos reconhecer e que os outros têm que reconhecer nele […]”
(FOUCAULT, 1995a, p. 235). Contudo, mesmo sabendo que cada um pode infligir, através
da relação que mantém consigo mesmo, uma potente resistência a essa forma política de
poder que nos sujeita, como poderíamos ingressar efetivamente em tais lutas?
Segundo Foucault, a batalha contra o governo da individualização se daria através
da “recusa deste tipo de individualidade que nos foi imposta há vários séculos”
(FOUCAULT, 1995a, p. 239), seguida pela intensificação da imaginação e criação de novas
formas de vida. O que sugere a necessidade de uma reabilitação da estética da existência na
atualidade, a qual poderia proporcionar ao indivíduo, por meio de um trabalho realizado na
própria relação consigo – uma ascese –, transformar sua maneira de pensar e realizar em si
uma forma de vida inédita.
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
5
Se me interessei pela Antiguidade foi porque, por toda uma série de razões, a idéia
de uma moral como obediência a um código de regras está desaparecendo, já desapareceu.
E a esta ausência de moral corresponde, deve corresponder uma busca que é aquela de uma
“estética da existência” (FOUCAULT, 2004c, p. 290, grifo nosso).
É nesse ponto que surge a importância da homossexualidade para tal intento, a qual
foi para Foucault um campo privilegiado de estudo e experimentação para seu pensamento
– devendo ser considerada não como uma forma de desejo, mas como algo desejável. A
homossexualidade seria, então, em nosso tempo, uma dessas relações que escaparia ao
biopoder subjetivante e acarretaria um enriquecimento do tecido relacional, isto é, através
de problematizações que indicariam novos modos de vida.
É preciso que se troque a idéia que diz que devemos tentar re-introduzir a
homossexualidade na normalidade geral das relações sociais, pela idéia de que devemos
incentivar e permitir que a homossexualidade fuja dos tipos de relações que nos são
propostos e impostos por nossa sociedade (FOUCAULT, 2004a, p. 122).
A homossexualidade é uma ocasião histórica de “reabrir virtualidades relacionais e
afetivas”, não tanto pelas qualidades intrínsecas do homossexual, mas pela “posição
de ‘enviesado’”, em qualquer forma, as linhas diagonais que se podem traçar “no tecido
social”, as quais permitem fazer aparecer essas virtualidades (FOUCAULT, 1981, online,
grifo nosso).
Assim, em vez de os homossexuais procurarem em si a verdade ou o segredo
íntimo de seu sexo, deveriam buscar usar do imenso potencial criativo de sua sexualidade,
assim como de seu específico posicionamento ético-político – decorrentes da ausência de
um sistema relacional – para desenvolverem múltiplas relações (FOUCAULT, 1981).
Desse modo, a questão atual para os homossexuais não seria apenas lutar pelo
reconhecimento social e jurídico, manifestado pela busca de igualdade nos direitos
individuais correntes entre os heterossexuais – casamento, adoção, herança, etc. –, mas,
também, por um novo “direito relacional”4, o qual permitiria que todos os tipos de relação
pudessem existir. Como Foucault (1984b) afirmou, os homossexuais não devem apenas se
defender, porém também se afirmar e não somente enquanto identidades, mas
prioritariamente enquanto força criativa. Trata-se de reconhecer-se enquanto homossexual,
isto é, atribuir-se o valor necessário e suficiente para realizar-se enquanto homossexual:
buscar inventar e desenvolver, através de uma ascese contínua, um modo de vida gay, um
tornar-se gay (FOUCAULT, 1981, 1984b, 2004a, p. 125). Em suma, para que a
homossexualidade exerça e não perca seu caráter de inovação e resistência ao poder
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
6
subjetivante moderno é preciso que suas lutas estratégicas não se limitem, como vimos,
apenas às exigências por isonomia ou a uma identidade política, porém se prolonguem em
uma constante “criação de novas formas de vida, de relações, de amizades nas sociedades, a
arte, a cultura de novas formas que se instaurassem por meio de nossas escolhas sexuais,
éticas e políticas” (FOUCAULT, 1984b).
Foi ao redor de toda essa discussão a respeito da homossexualidade, bem como da
afirmação necessária de sua força produtora de subjetividades, que Foucault situou a
questão da “amizade”, todavia sem restringir, com isso, esta noção àquele campo
específico. Segundo o autor, a homossexualidade se torna um problema social, político e
médico, a partir do séc. XVIII, devido ao desaparecimento social da amizade entre os
homens. Vale ressaltar que a amizade que Foucault trabalha difere quanto ao significado
que a mesma possui atualmente. Tratava-se de uma relação social muito importante,
desenvolvida nos séculos seguintes à Antigüidade, a qual permitia que em seu interior os
indivíduos dispusessem “de uma certa liberdade, de uma certa forma de escolha (limitada,
claramente), que lhes permitia também viver relações afetivas muito intensas”
(FOUCAULT, 1984b, online). E este é o ponto de destaque, pois foi precisamente devido à
existência e à produção dessa intensidade de afetos dentro da amizade que as instituições
modernas viram a necessidade de extingui-la, ou pelo menos o seu caráter sexual, dos
meios de intensa convivência entre homens, como, por exemplo, a escola e o exército.
Esse interesse foucaultiano pela amizade justifica-se pelo fato dos gays estarem
buscando hoje em dia algo que possua certa relação com a homossexualidade, um estilo de
vida. “Isso para onde caminha os desenvolvimentos do problema da homossexualidade é o
problema da amizade” (FOUCAULT, 1981, online).
[…] o interesse pela amizade está se tornando muito importante. Não se entra
simplesmente na relação para poder chegar à consumação sexual, o que se faz muito
facilmente; mas aquilo para o que as pessoas são polarizadas é a “amizade”. Como chegar,
por meio das práticas sexuais, a um “sistema relacional”? “É possível criar um modo de
vida homossexual?” […] Um modo de vida pode ser partilhado por indivíduos de idade,
estatuto e atividade sociais diferentes. Pode dar lugar a relações intensas que não se
parecem com nenhuma daquelas que são institucionalizadas e me parece que “um modo de
vida pode dar lugar a uma cultura e a uma ética” (FOUCAULT, 1981, online, grifo nosso).
É precisamente a ausência de um sistema relacional que faz da homossexualidade
um campo fértil e aberto a novas possibilidades relacionais ainda não institucionalizadas. É
por isso que Foucault vê com bons olhos a atual tarefa dos homossexuais, ou seja,
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
7
“inventar de A a Z uma relação ainda sem forma que é a amizade: isto é, a soma de todas
as coisas por meio das quais um e outro podem se dar prazer” (FOUCAULT, online, 1981).
É então que Foucault nos questiona a possibilidade de se criar, a partir da amizade
– que é uma forma de relação, um modo de vida – uma ética, bem como uma cultura, ao
redor do prazer.
Somos capazes de ter uma ética dos atos e seus prazeres que possa levar em
consideração o prazer do outro? O prazer do outro é algo que pode ser integrado ao nosso
prazer, sem referência nem à lei, ao casamento, ou qualquer outra coisa? (FOUCAULT,
1995b, p. 258).
O prazer também deve fazer parte de nossa cultura. É muito interessante notar, por
exemplo, que depois de séculos as pessoas em geral – mas também os médicos, os
psiquiatras e mesmo os movimentos de liberação – têm sempre falado do desejo e nunca
do prazer (FOUCAULT, 1984b, online).
Somos capazes de criar uma cultura no sentido amplo, isto é, inventar modalidades
de relações, tipos de valores, formas de troca entre pessoas que sejam inéditas tendo em
vista o prazer dos indivíduos? (FOUCAULT, 2004a, p. 122-123).
Digamos que “amizade” é, tão somente, a textura do “tecido relacional” de um
tempo, em que pesem as capturas e as liberdades que nele encontramos. Por isso, temos de
entender a amizade, em primeiro lugar, como o campo de relações em que nos
constituímos, e que inclui, naturalmente, a amizade entre pessoas. De fato, qualquer relação
determinada é uma amizade no sentido definido acima.
2. Teoria das relações para a amizade: prazer, dessexualização e ascese
A questão que Foucault quer abordar a partir daí é a da necessidade de se criar uma
nova vida cultural frente ao empobrecimento de nosso tecido relacional e afetivo; de se
desenvolver produções culturais que tenham por objetivo principal o prazer; de produzir
uma cultura de amizades a partir de um devir-minoritário gay, a qual possibilite, mesmo
parcialmente, que suas relações sejam transpostas aos heterossexuais, como a qualquer
outra categoria (FOUCAULT, 1984b, 2004a, p. 122-123). Para tanto o trabalho não se
destinaria às desgastadas lutas por liberação sexual, mas sim a um constante processo
voluntário de reflexão e imaginação com a finalidade de nos constituirmos como seres mais
suscetíveis, como também mais preocupados com o outro, no campo dos prazeres. Desse
modo, em vez de tentarmos liberar o nosso desejo dos grilhões da repressão sexual, “[…]
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
8
devemos criar prazeres novos. Então, pode ser que o desejo surja” (FOUCAULT,
1984b, online).
É importante assinalar que nessa relação entre amizade e prazer, Foucault encontra
o sado-masoquismo como uma prática extremamente interessante e produtiva. Devido à
rapidez e facilidade com que os homossexuais alcançam a consumação sexual, bem como à
maior liberdade da qual dispõem, nesse campo, para a experimentação, surge o sadomasoquismo
como uma linha de fuga ao caminho do tédio e da tristeza, trazendo consigo
um intenso fator multiplicador de possibilidades de prazer.
Eu penso que temos uma forma de criação, de empreendimento de criatividade,
dos quais a principal característica é o que chamo de “dessexualização do prazer”. A idéia
de que o prazer físico provém sempre do prazer sexual e a idéia de que o prazer sexual é a
base de todos os prazeres possíveis, penso, é verdadeiramente algo de falso. O que essas
práticas de S/M nos mostram é que nós podemos produzir prazer a partir dos objetos mais
estranhos, utilizando certas partes estranhas do corpo, nas situações mais inabituais, etc.
(FOUCAULT, 1984b, online, grifo nosso).
O que se pode entender com esse processo de dessexualização do prazer é que a
sexualidade, mesmo aparecendo constantemente como uma das fontes mais produtivas de
nossa sociedade e de nosso ser, não deve ser entendida como uma fatalidade, mas antes
como uma possibilidade de se alcançar uma vida criativa (FOUCAULT, 1984b). Com isso,
Foucault liberta o prazer do campo normativo da sexualidade e lhe oferece uma
abundância de possibilidades de surgimento através da criatividade de qualquer “prática
possível”.
Nesse campo suscetível ao surgimento de múltiplas relações inéditas, constituído
pela amizade, a existência do poder é inevitável, pois, segundo Foucault, em qualquer
relação humana há relações de poder, sendo que quanto mais aberto for o jogo maior será
o desejo de determinar a conduta do outro (FOUCAULT, 2004d, p. 276-286). Convém
destacar que esse governo da conduta alheia, enquanto relação de poder, não visa a
destruição do outro, pelo contrário, considera-o como um sujeito ativo que tem sempre a
possibilidade de fuga, resistência, luta e inversão da situação (FOUCAULT, 1995a, p. 243).
Entretanto, há casos em que as relações de poder podem se tornar saturadas de tal forma
que a mobilidade entre as estratégias desaparece:
Quando um indivíduo ou um grupo social chega a bloquear um campo de relações,
a torná-las imóveis e fixas e a impedir qualquer reversibilidade do movimento – por
instrumentos que tanto podem ser econômicos quanto políticos ou militares –, estamos
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
9
diante do que se pode chamar de um “estado de dominação” (FOUCAULT, 2004d, p. 266,
grifo nosso).
Toma destaque, então, a questão de como evitar que tais fatos de dominação
apareçam na amizade. Como vimos, Foucault acredita que possa surgir uma ética a partir
de um modo de vida, de maneira que, seguindo tal pensamento, seria lógico acreditarmos
na existência, a partir da amizade, de éticas que levem em consideração o prazer alheio.
Todavia, essa preocupação com a satisfação do outro seria um impeditivo suficientemente
capaz de barrar o aparecimento de estados de dominação? A resposta para esse problema
parece estar no modo como agimos dentro das relações de poder que experimentamos
todos os dias, uma vez que, para Foucault, deveríamos agir de maneira bastante prudente e
empírica, atentos a todos os detalhes, pois o que separa tais relações dos estados de
dominação é uma linha extremamente emaranhada e nebulosa (FOUCAULT, 2004e, p.
223). Em adição a isso, caso sejam encontrados pontos de dominação, faz-se necessário ter
sempre em mente um princípio crítico7 que questione a necessidade, para a estratégia em
questão, da existência de tais focos de não-consensualidade.
É importante esclarecer que essa preocupação com a presença de focos de nãoconsensualidade,
ou mesmo de dominação, não exclui da amizade a existência de conflitos,
pelo contrário, estes são extremamente significativos para tal modo de vida. Nele, há um
campo fecundo aos embates de idéias, os quais não buscam alcançar uma verdade
universal, mas permitir a consideração de múltiplos pontos de vista com a finalidade de
colher material a ser refletido e, posteriormente, utilizado na incessante criação do Si.
A amizade […] [é] a afirmação de existências livres. Os amigos vivem pelas suas
diferenças. Não são espelhos para os outros, identidade coletiva ou ideal, fusão numa
unidade superior. Os amigos livres são seus principais inimigos, não deixam as coisas
sossegadas, como se houvesse um patamar acima a ser atingido onde residem o equilíbrio, a
doçura e as delicadezas obrigatórias (PASSETTI, 2003, p. 12).
Dessa maneira, o que se enfoca não é o apego a formas de identidade com
características em comum, mas sim um esforço para a compreensão e aceitação do outro
como diferença inquietante. Como sugere Nietzsche (2006, p. 56-57): “é preciso honrar no
amigo o inimigo. […] No amigo deve ver-se o melhor inimigo”. Não se deve buscar
encontrar no amigo um reforço para sua identidade, mas, pelo contrário, material para
transformação e criação do Si.
Como pôde ser observado, toda a amizade foucaultiana é permeada por certo fator
de conflito; de inovação, experimentação, diferenciação; de reflexão, trabalho e afirmação
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
10
de si enquanto força criativa – ou seja, por uma certa atitude ativa frente às condições
atuais em que vivemos. Essa postura não passiva, esse modo de ser encontrado na amizade,
pode ser entendido como aquilo que Foucault chamava de “atitude de modernidade”.
Por atitude, quero dizer um modo de relação que concerne à atualidade; uma
escolha voluntária que é feita por alguns; enfim, uma maneira de pensar e de sentir, uma
maneira também de agir e de se conduzir que, tudo ao mesmo tempo, marca uma
pertinência e se apresenta como uma tarefa. Um pouco, sem dúvida, como aquilo que os
gregos chamavam deêthos (FOUCAULT, 2005b, p. 341-342, grifo do autor).
Trata-se de certa maneira de se conduzir consistente em um permanente trabalho
crítico sobre nossos próprios limites e que se dá através de uma ontologia crítica de nós
mesmos, aliado a uma intensa experimentação.
Quero dizer que esse trabalho realizado nos limites de nós mesmos deve, por um
lado, abrir um domínio de pesquisas históricas e, por outro, colocar-se à prova da realidade
e da atualidade, para simultaneamente apreender os pontos em que a mudança é possível e
desejável e para determinar a forma precisa a dar a essa mudança (FOUCAULT, 2005b, p.
348).
Como ferramenta de extrema valia em tal processo, toma destaque o modo como
Foucault considerava a Filosofia – “uma ‘ascese’, um exercício de si, no pensamento”
(FOUCAULT, 1984a, p. 13). De fato, o pensador ligava as questões relativas à construção
dos modos de vida, como o modo gay, a uma maneira prática de se entender a necessidade
da filosofia:
[…] o que é filosofar hoje em dia – quero dizer, a atividade
filosófica – senão o trabalho crítico do pensamento sobre o
próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que
maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de
legitimar o que já se sabe? (FOUCAULT, 1984a, p. 13).
Tal ponto de vista acerca da filosofia não é recente, tendo sido o mesmo corrente
entre os antigos gregos, helenísticos e romanos, para os quais a filosofia significava um
permanente exercício de transformação de si durante toda a vida daqueles que quisessem
alcançar a verdade, bem como a única capaz de dirigir o pensamento (FOUCAULT, 1984a,
1985; ORTEGA, 1999).
Nessa ascese, o material a ser trabalhado, através de uma intensa atitude
experimental, seria o pensamento.
A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de pensamento, a
modificação dos valores estabelecidos, e todo o trabalho que se faz para pensar
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
11
diferentemente, para fazer diversamente, para “tornar-se outro do que se é” (FOUCAULT,
1994, p. 143, grifo nosso).
Evidencia-se, com isso, a importância que Foucault atribui ao pensamento no
que tange à ascese, uma vez que esse se situaria como o principal instrumento-efeito do
trabalho de si sobre si. Seria, através da filosofia que poderíamos confrontar o que somos e
fazemos com o que pensamos e dizemos, refletir sobre aquilo que acreditamos,
transformar nossos pensamentos, enfim: questionar e elaborar de forma diversa aquilo que
somos. E é este o ponto que acreditamos ser o elo entre a estética da existência presente na
Antiguidade e a amizade para Foucault – “a noção de filosofia como ascese interligada a
sua noção de amizade”.
Com efeito, podemos compreender tal afirmação seguindo um encadeamento
lógico de algumas importantes considerações. Em primeiro lugar, Foucault acredita que a
ética é uma prática, a “prática refletida da liberdade” (FOUCAULT, 2004d, p. 267); em
segundo, que o modo como pensamos hoje em dia é influenciado por uma tradição de
racionalidades que se coaduna ao biopoder e, por isso, a solução para questionarmos e
modificarmos o regime de verdade de nossa época estaria no exercício “crítico e reflexivo”
do pensamento sobre seus próprios parâmetros – tarefa da filosofia; e por fim, amarrando
a linha de raciocínio, que há a necessidade de uma consonância entre atos e palavras, isto é,
entre ética e política – o que explica a declaração de Foucault de que a chave da atitude
política pessoal de um filósofo deva ser procurada em sua “filosofia como vida, em sua
vida filosófica, em seu êthos” (FOUCAULT, 2004e, p. 219, grifo do autor) e não em suas
idéias. Por tudo isso, torna-se evidente que a amizade foucaultiana utiliza-se da filosofia
como um exercício de si no pensamento para constituir-se como um modo de vida e de
relações que escapa constante dos processos de institucionalização e restrição do tecido
relacional impostos pelo biopoder subjetivante. É devido a essa ascese filosófica do
pensamento que a amizade exerce seu potencial de ruptura do instituído e de
desenvolvimento de inéditas criações culturais com suas implicações ético-políticas. Enfim,
vale ressaltar, mais uma vez, que todo esse processo expansivo e positivo efetuado pela
amizade não se restringe ao campo homossexual masculino – o qual serviu de base de
estudos e experimentação para a elaboração de tal conceito foucaultiano –, uma vez que
essa pode surgir em qualquer segmento social que seja permeado pelas necessárias
contingências sócio-histórico-políticas. De fato, na amizade, trata-se justamente do
desenvolvimento de relações que ultrapassem quaisquer categorias, sejam elas de gênero,
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
12
idade, classe social, etc., uma vez que é por meio da normalização e compartimentalização
das relações que o biopoder restringe e captura os processos de subjetivação.
Com tudo isso, após seguirmos a empreitada foucaultiana direcionada à busca
por modos de vida mais autônomos, podemos caracterizar a amizade como sendo uma
forma de se relacionar, uma maneira ou estilo de ser e de se conduzir, buscada
voluntariamente por alguns, que traz consigo um modo de pensar, sentir, agir que não
menospreza a atualidade. Esse êthos filosófico busca constantemente analisar e refletir sobre
os limites que determinam o que somos, pensamos e fazemos, ao mesmo tempo em que,
permanentemente, experimenta o atual com o intuito de descobrir onde podem surgir os
novos focos de processos de subjetivação. Sendo por isso que a amizade é considerada
como uma estratégia de resistência extremamente perigosa para o biopoder subjetivante,
uma vez que contradiz e combate diretamente a individualidade padronizada imposta por
essa específica forma de poder.
Na amizade, através do elogio ao prazer, multiplicam-se os campos de
possibilidade de relacionamentos e, conseqüentemente, de surgimento de novas
subjetividades. A amizade, por isso, é a expansão das relações, de qualquer relação, para
além de suas supostas codificações. Esse conceito de amizade não é muito difícil de
realizar, porque o que mais há são as relações que não se enquadram. Elas são até mais
numerosas de que as relações codificadas. O difícil é percebê-las, pois são mais provisórias
do que as outras que julgamos a “verdadeira amizade”. Provisórias, não no sentido de
pouco duradouras; provisórias porque elas acontecem de costume num corpo a corpo com
as outras, à sombra daquelas mais codificadas e estabelecidas.
Sendo o prazer a potência criativa, a “força do encontro que constitui o corpo de
relações” (CARDOSO JR., 2005, p. 346) entre nosso núcleo de subjetividades e as coisas
que nos circundam, fica clara a intenção foucaultiana ao situá-lo como ponto de
materialização de uma cultura “por vir”. Foucault via nessa cultura criativa, ainda por ser
inventada, a saída para o “duplo constrangimento” – a simultânea individualização e
totalização – político, ético, social e filosófico a que somos sujeitados pelo poder moderno.
Uma cultura do prazer que traga consigo o gozo do possível.
Para terminar, faremos uma pergunta que dará a indicação para a continuidade
possível do presente artigo: a preocupação de Foucault implica uma teoria das relações, um
modo de pensar as relações tendo em vista as questões filosóficas apresentadas ao longo de
nosso argumento?
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
13
Foucault e Deleuze impulsionaram uma “teoria das relações”. Isto é, uma teoria
cujos princípios são práticos, uma teoria voltada para a invenção de modos de vida, sem a
qual nossa existência ética teria de se render aos valores estabelecidos.
De um ponto de vista mais estrito, levando-se em conta os processos de
“subjetivação”, ou seja, toda relação na qual nos colocamos como sujeitos, a teoria das
relações adquire contornos mais significativos. Uma relação de amizade não se deve àquilo
que deriva dos indivíduos envolvidos, mas dos feixes de relações que atravessam um e
outro, relações de ordem biológica, social, econômica, histórica, etc. Tornarmo-nos sujeitos
demanda, portanto, toda uma implicação de linhas que formam o tecido relacional, logo,
em certo sentido, é correto dizer que as relações através das quais somos compostos, por
exemplo, como amigos, são exteriores às duas pessoas que, por meio delas, se tornam
amigas. Cada amizade, envolva ela um ou “n indivíduos”, sempre traz consigo um
emaranhado de mundos que não pertencem e nem podem ser controlados por nenhum
dos envolvidos. Por isso, as relações são sempre exteriores aos termos que elas relacionam
(DELEUZE, 1953, p. 109).
Mas, como relações podem ser exteriores e por que seu efeito pode ser a
diferenciação ou criação de novos modos de vida?
Pode-se afirmar, aos nos referirmos a uma relação, que um terceiro indivíduo
aparece. “Ele” tem vida própria, pois é exterior aos amigos dos quais provém, sendo que a
amizade pode ser entendida como um novo “corpo” que se autopõe e que os amigos
devem nutrir e manter. Esse terceiro é o corpo do “fora”, ele não está entre os próprios
elementos interligados, é a própria relação. Isso quer dizer, para reforçarmos uma idéia
anteriormente enunciada, que o essencial de uma amizade, seu destino, depende dessa
exterioridade, pois não pertence nem a um nem a outro dos amigos. A amizade sempre está
“entre”.
Referências Bibliográficas
CARDOSO JR., H. R. Para que serve uma subjetividade?: Foucault, tempo e
corpo. Psicologia, reflexão e crítica. Porto Alegre, v. 18, n. 3, p. 343-349, 2005.
DELEUZE, G. Empirisme et Subjectivité. Paris: PUF, 1953.
______. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1988.
FOUCAULT, M. De l’amitié comme mode de vie. Gai Pied, nº 25, p. 38-39, abr. 1981.
Disponível em: . Acesso em: 10 nov.
2006. Entrevista de Michel Foucault a R. de Ceccaty, J. Danet e J. le Bitoux. Tradução de
Wanderson Flor do Nascimento.
______. História da sexualidade: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984a. v. 2.
______. Sex, power and the politics of identity. The Advocate, Los Angeles , n. 400, p. 26-30
/ 58, ago. 1984b. Disponível em: .
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
14
Acesso em: 10 nov. 2006. Entrevista de Michel Foucault a B. Gallagher e A. Wilson.
Tradução de Wanderson Flor do Nascimento.
______. História da sexualidade: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 1985. v. 3.
______. Archivio Foucault (Vol. 3: Estetica dell’esistenza – A cura di Alessandro Pandofi).
Milano: Feltrinelli, 1994.
______. O sujeito e o poder. In: RABINOW, P; DREYFUS, H. (Org.) Michel Foucault, uma
trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1995a. p. 231-249.
______. Michel Foucault entrevistado por Hubert L. Dreyfus e Paul Rabinow. In:
RABINOW, P.; DREYFUS, H. (Org.) Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do
estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995b. p. 253-278.
______. A vida dos homens infames. In: MOTTA, M. (Org.). Estratégia, Poder-Saber. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2003. v. 4, p. 203-222. Coleção Ditos & Escritos.
______. O triunfo social do prazer sexual: uma conversação com Michel Foucault. In:
MOTTA, M. (Org.). Ética, sexualidade e política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004a.
v. 5, p. 119-125. Coleção Ditos & Escritos.
______. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004b.
______. Uma estética da existência. In: MOTTA, M. (Org.). Ética, sexualidade e política. Rio
de Janeiro: Forense Universitária, 2004c. v. 5, p. 288-293. Coleção Ditos & Escritos.
______. A ética do cuidado de si como prática da liberdade. In: MOTTA, M. B.
(Ed.). Ética, sexualidade e política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004d. v. 5, p. 264-
287. Coleção Ditos & Escritos.
______. Política e ética: uma entrevista. In: MOTTA, M. (Org.). Ética, sexualidade e política.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004e. v. 5, p. 218-224. Coleção Ditos & Escritos.
______. A tecnologia política dos indivíduos. In: MOTTA, M. (Org.). Arqueologia das ciências
e história dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005a. v. 5, p. 301-
318. Coleção Ditos & Escritos.
______. O que são as luzes? In: MOTTA, M. (Org.). Arqueologia das ciências e história dos
sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005b. v. 2, p. 335-366. Coleção
Ditos & Escritos.
NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. São Paulo: M. Claret, 2006. v. 22. Coleção a obraprima
de cada autor.
ORTEGA, F. Amizade e estética da existência em Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1999.
PASSETTI, E. Éticas dos amigos: invenções libertárias da vida. São Paulo: Imaginário, 2003.
1. Texto originalmente publicado em: Fractal: Revista de Psicologia, Niterói, v.21, n. 1,
jan./abr. 2009. p. 43-56. Disponível
em:.
Acesso em: 9 out. 2009. Fonte de financiamento: FAPESP.
2. Doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas. Professor de Filosofia da
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Faculdade de Ciências e Letras de
Assis, Departamento de História. Endereço: Av. Dom Antônio, 2001. CEP: 19806-173 –
Assis, SP – Brasil.
E-mail: herebell@hotmail.com
3. Bacharelado, Licenciatura e Formação Clínica em Psicologia – UNESP/Assis.
E-mail: thiago@kanonenko.com.br
A amizade para Foucault: resistências criativas… Hélio Rebello Cardoso Jr; Thiago Canonenco Naldinho
espaço michel foucault – http://www.filoesco.unb.br/foucault
15
4. Os aphrodisia eram a dinâmica constituída pelos atos, prazeres e desejos relacionados à
atividade sexual na Antigüidade greco-helenística-romana (Cf. FOUCAULT, 1995b, p. 263-
266).
5. Foucault não acreditava que deveríamos encontrar a solução para um problema atual em
outras épocas. No entanto, pensava que o contato com outras experiências poderia nos
servir de exemplo que a alternativa é possível (Cf. FOUCAULT, 2004d, p. 280).
6. A luta por direitos empreendida pelas minorias era estimada por Foucault, todavia ele
acreditava que essa seria apenas a primeira etapa na batalha contra a matriz moderna da
individualização, pois uma outra dimensão importante estaria na possibilidade de criação
que perpassa qualquer minoria, pelo fato destas estarem fora da abrangência do restrito
sistema relacional imposto pelo poder subjetivante. Quanto ao direito relacional, podemos
dizer que este não se restringe aos direitos associativos, os quais já foram conquistados no
século XIX. “O direito relacional é a possibilidade de fazer reconhecer, em um campo
institucional, relações de indivíduo para indivíduo que não passem necessariamente pela
emergência de um grupo reconhecido. É algo completamente diferente [dos direitos
associativos]. Trata-se de imaginar como a relação entre dois indivíduos pode ser validada
pela sociedade e se beneficiar das mesmas vantagens que as relações – perfeitamente
honrosas – que são as únicas a serem reconhecidas: as relações de casamento e de
parentesco” (FOUCAULT, 2004a, p. 125).
7. Foucault destaca a importância deste não ser um princípio regulador, mas crítico, o que
parece sugerir a importância, por ele atribuída, de ser empírico ao se tratar de relações de
poder : “Não diria princípio regulador, pois seria ir longe demais, porque, a partir do
momento em que se diz princípio regulador, admite-se que é em função disso que o fato
deve se organizar, dentro dos limites que podem ser definidos pela experiência ou pelo
contexto. […] talvez não se deva ser a favor da consensualidade, mas contra a nãoconsensualidade.”
(FOUCAULT, 2004e, p. 224).

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s